04/04/2006
Não era um dia muito tranquilo, era aniversário da minha irmã. Lembro que minha mãe, Lívia e eu passamos a tarde confeitando um bolo de prestígio pros poucos convidados que nunca recebem convites diretos. Eu passei a tarde vigiando o bolo na geladeira, depois de pronto. Minha irmã foi pro cursinho e minha mãe comprar algumas coisas na rua. A noite foi se aproximando e uma agonia de fim de tarde de Domingo tomava conta de mim.
Minha prima desceu de sua casa e veio conversar comigo, ficamos na porta esperando que os vizinhos e amigos chegassem enquanto minha mãe participava de uma reza, o irmão dela (da minha prima) de um encontro e minha irmã não chegava do cursinho. Meu pai já tinha chegado e não aguentando o clima ansioso de data festiva ficou rodando entre o bar da frente, a garagem e a casa de minha avó, nos fundos.
Quatro de Abril, gosto do número quatro, sempre quis ter a data de aniversário da minha irmã. Aliás não gosto de conviver com pessoas de Áries, mas é um signo que admiro, ao contrário de Leão, ao contrário de Touro. Admiro Gêmeos, mas não queria ser.
_ Que sorte da sua irmã né? O Tio Luiz vai chegar no dia do aniversário dela.
Um nó me apertou por dentro.
_ O tio vai chegar hoje? Da Bahia? Eu não sabia! - pensei que era bom mesmo ele vir, ele mandava muitos e-mails pra minha irmã e eu queria dar o meu a ele pra receber também.
Outro nó apertou. Sabe quando alguém passa muitos dias na sua casa? Quando vai embora não te dá uma coisa ruim? Eu senti aquilo pela primeira vez com a chegada de alguém.
Apareceu uma vizinha com suas duas filhas, minha prima com seu namorado, um amigo do meu pai, e nada da minha irmã, nada da minha mãe, nada do meu tio. O telefone tocou.
_ Alô?
_ A-alô, eu queria falar com o Pedrinho, o Pedro. - meu pai não gosta de telefonema comercial, perguntei de onde era, pra ter certeza que não era do banco.
_ Fala pra ele que... fala que é de Itabuna.
Saquei o telefone sem fio, abafei o áudio e no portão de casa falei:
_ Pai, o Tio Luiz tá vindo pra cá e é de Itabuna.
Tentei esquecer o que tinha dito, subi pro meu quarto com minha prima, ignorando todas as visitas. Inquieta, desci as escadas e sentei na calçada do lado de fora. O namorado da minha prima passou praticamente carregando-a, corri atrás dela e perguntei o que era: silêncio.
Deseperei, subi e desci as escadas uma porção de vezes. Encontrei a vizinha perdida também:
_ O que aconteceu?
_ Parece que alguém morreu.
_ NÃO! Meu tio Luiz.
Prefiro não lembrar os próximos minutos confusos. Busquei meu primo no encontro, minha mãe na reza. Tive que dar a notícia por telefone, tive que suportar ver minha avó chorar. Tudo sem derramar uma lágrima, até então era em mim que encontravam as forças.
Minha amiga, filha da vizinha que deu a notícia. Sentou do meu lado e disse:
_ Não chora, todo mundo precisa de você.
Eu posso até me acostumar a tentar ser forte, e a passar força, mas não sou forte. São coisas distintas, o que me afeta ME AFETA. Não segurei o choro, precisava dele.
Sete dias depois tive que ouvir o Pe. Borelli narrar os bastidores na missa:
_ (...) sua mãe tinha preparado seu franguinho, deixado a cervejinha na geladeira, ele ligou de Ipatinga e disse que já estava chegando, a cama forrada (...)
Quatro anos mais tarde (quatro de novo?) minha irmã enviou um e-mail pra minha mãe: Mãe, vou chegar aí hoje 19:30. Já eram 23:30 quando começamos a ligar preocupadas e ninguém atendia. No fundo eu já não estava preocupada, algo em mim me dava a certeza do mal entendido daquela mensagem. Mas minha mãe preferia exaltar seu signo de Gêmeos e chorar. Na tentativa de se recompor levantou da cadeira e disse, colocando nas mãos de um Criador que ela capacita de tirar suas dores:
_ Vou arrumar a cama dela, se ela chegar já está pronta.
Pela primeira vez na noite tive medo de algo ter acontecido:
_ Não arruma cama de quem não chegou.
_ Por que?
_ Por causa do tio Luiz, não gosto.

3 comentários:
lílian, muito bonito o seu texto. e muito obrigada pelo comentário no blog, fico super feliz em saber que você tem gostado dos poemas. seus haikais são ótimos!
beijos
Alice Sant'anna por aqui, é uma honra!
isso q dá minha mãe ler e-mail sem óculos. No lugar de vou te ligar, ficou vou chegar. Boa descrição. Péssima lembrança. Engraçada Superstição.
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