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dor

terça-feira, 4 de agosto de 2015 |

Doeu tanto
que dormiu
e sonhou profundo
com desesquecimentos
tudo em branco e negro
evidenciando a linha
da inverdade, da memória

acordou chorando
num quarto colorido
sem sombras pra fantasiar
a dor que ainda doía

quinta-feira, 30 de julho de 2015 |

"verbos loucos
a vida de cada um é poucos
eu sempre tô na média
a vida quando não é drama é comédia
e de rimas fáceis
narro meu presente
meu passado é minha base
e o futuro é esse tempo sempre ausente" (Mc P.H. - mais uma do diário dele)


só quando sozinha eu tenho coragem de ser eu

Como morrem os bichos de luz

segunda-feira, 27 de julho de 2015 |

Estive a noite toda desviando o assassinato. Ainda que Haneke insistisse em matar um personagem após o outro, eu pausava o filme e pesquisava um quadro, uma música, uma banalidade qualquer. Então um bichinho de luz pousou sobre a tela do computador. Levemente tratei de tirá-lo, encarei seu formato no escuro, preso entre meu indicador e o polegar. O atirei para o lado, realmente esperava que fosse embora.

O que é a morte? Uma criança interroga a irmã mais velha no filme. E de novo com o peito cheio de ar tento dar atenção à mise-en-scène perfeita de Haneke, penso em algumas pinturas. Não anotei no meu diário de sonhos, mas calculava haver uma semana do sonho com Dalí. Ah, eu ainda não falei do sonho com Dalí. Sonhei que conversava por vias online com o mestre, lembro de perguntar do que era feito o surrealismo e do que era feito a morte. Ele, morto, me dizia que a morte era mais leve que a vida, mas era a mesma coisa e o surrealismo era feito da morte.

Passei a semana imaginando, sem pesquisar quais eram os últimos quadros de Dali, o que ele teria sentido ou pensado. Não sei por que, mas gostava de pensar que ele estava ansioso por morrer, que já havia imaginado tantas vezes como era a morte que não a temia, estava apenas ansioso por conferir, por pintá-la.

Outra vez o bichinho de luz pousou sobre a tela. Delicadamente o atirei ao vento, mas desta vez o senti mais firme entre meus dedos, talvez eu o tivesse machucado ou matado.

Ultimo quadro de Mark Rothko antes de morrer. (1969)
Oh Deuses! Eu havia sonhado com Mark Rothko há um mês, sem nunca antes ter consciência de sua obra. Naquela ocasião sonhei com um quadro que já apresentarei a vocês, mas no sonho o quadro era meu, eu tinha vários pintores, eu só os ordenava, lhes dei a forma e dizia as cores. Primeiro uma paleta com verdes e rosas, e deixava uma goiaba de referência; depois uma paleta amarelo e vermelha, um mamão; uma preta e marrom que eu nunca encontrei a referência e por isto o pintor não encontrava os tons e eu estava irritada; os dois primeiros para mim eram o sexo, e o último eu também não sabia.

As formas a serem preenchidas com as cores das frutas era este:


Outra vez apareceu o bichinho de luz, fui piedosa mais uma vez, ele não estava machucado.


Mas deveríamos voltar ao Dalí. Na verdade eu já não me lembro o resto do sonho e não quero inventar, não sou de inventar a irrealidade, só gosto de inventar realidades, os sonhos e a morte são sagrados em minha mentira.

Há mais ou menos duas semanas meus assuntos têm sido morte, uma conversa na mesa de uma sorveteria, outra na internet, pelo menos três em meus sonhos, na mesa de casa infinitas, impulsos autodestrutivos aos montes. E Haneke coloca uma criança sobre o para-peito de uma ponte, o professor trata de fazê-la descer e ela apenas responde que deu a Deus a chance de matá-la, mas parece que ele não está infeliz com ela.

Desta vez quando o bichinho de luz mais uma vez decora a tela do meu computador decido matá-lo, pela insistência, uma forma de castig... oh! o que eu fiz? Pobre bicho, apenas buscava a luz! Será que a morte se sente assim quando leva uma alma? Será que existem tantas mortes quanto humanos e cada uma só levará um de nós e nunca mais repetirá a mesma falha?



Finalmente, esta foi a última vez que Dalí pintou, seria o rosto da morte? Ou o som dela? Ou nada? Agora só restavam algumas linhas abandonadas ao léu, esperando o contato com o céu? Perdoem-me a rima, não foi intencional. Restavam alguns minutos de Haneke e uma noite de sono inteira sem bicho de luz a me perseguir.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015 |

O pior golpe que eu podia receber era aquela pergunta: para aonde você vai amanhã? Tudo bem que aquela criança nem sabia o que era o amanhã, e era eu mesmo quem lhe havia ensinado, mas era tarde demais pra regressar à filosofia. Eu já depredava no abismo do pensamento.


Eu quase apaguei meu cigarro em uma formiga, mas se tem algo que eu nunca me perdoaria é por matar uma formiga. Aliás, eu nem fumo. E justo aquela hora começou o único filme que eu já vi mais de 10 vezes, ou o único que eu contabilizei tantas vezes vistas. Eu até minto pra mim, mas odeio mentir para os outros.

amanhecendo

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015 |

Ne-nhu-ma vontade de amanhecer
o céu demorando a clarear
quando já havia anunciado o Sol o canto do galo
e os pássaros já avivavam as horas da manhã

Nenhuma vontade de aparecer
senti o Sol se espreguiçando
e enrolando para iluminar

Será, mesmo, que esta madrugada não tem manhã?

8-11-2

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015 |

ou o oitavo onze do dois


E cada Fevereiro
não seria mais doce como outros fevereiros
até chegar Janeiro
e contabilizar um ano triunfado mais
estranho seria tentar explicar
como a notícia ia envelhecendo
quase olvidando o amargor inicial
que havia, em seu momento, chupado todos sorrisos de minha boca
Quantas promessas aos prantos eu fiz
de não esquecer nenhum detalhe
até passarem muitos anos
e encontrar
embolado a outros pequenos objetos
algo que não era meu
e nem poderia devolver

Muda, resignada
chorei por distração
a dor da dor que passou
a lembranças falsas que aquela ida me deixou
aos poucos as lágrimas trouxeram os soluços
e retrocedi até ali
sem ter certeza
do que era verdade e o que eu havia inventado
pra tentar esquecer as mentiras que ouvi

da infância internada

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 |

De olhos abertos
não vemos quase nada
dizia vovô
e todos nós
andando devagar
com venda nos olhos
reconhecendo as texturas
os cheiros
as posições das coisas

E repetia
- mais da metade do mundo,
está dentro de vocês,
nem adianta buscar aqui fora

Esbravejava que não tivéssemos medo
de anjos, nem de demônios,
que não poupássemos o fogo do dragão que levávamos dentro
fizéssemos visitas regulares às cores
olhássemos dentro dos olhos dos animais
dos humanos
e do espelho

o medo haveria de nos levar a lugares sombrios, úmedos
e a coragem à qualquer lugar que quiséssemos
mas sempre que olhássemos pra dentro
pois o mundo lá fora, era terrível
a ele temeríamos

e tirávamos as vendas, arrepiados. 

Puppet Pendulum - Eva Švankmajerová

sábado, 8 de novembro de 2014 |

inspirações improváveis
porque é vergonhoso aprender quando todo mundo sabe
e deveria ser delicioso
isto não é um poema, é como vêm os pensamentos
como se filmar o olhar fosse possível sem um cérebro câmera
se pudesse registrar todo pensamento
como seria?
nem palavras, nem imagens, às vezes sentimentos, sensações...
de que merda é feita o pensar?

outro dia pensava em bebidas que não tomo
resultado de porres memoráveis
não bebo por pensar racionalmente sobre a questão, a verdade é que simplesmente não tenho vontades, como se o nojo se instaurasse no dna
toda memória devia ser assim, transformada em emoção, repulsa ou receio, afeto ou sei lá
mas temos essa memória imagética, afetiva, conversamos, dialogamos dentro do próprio pensamento
e podemos digitar o que pensamos tão rápido, como se fosse fácil traduzir o que diz o cérebro

ha
escravos de nós mesmos
quando não aprendemos tudo de novo
todos os dias







Sem Título #

segunda-feira, 25 de agosto de 2014 |

1.

Leio cartas e poemas enquanto os ponteiros avisam a sucessividade das horas.

Me assusto a cada nova carta que recebo. Ainda sabem meus endereços quando até eu estou perdida, sem saber onde situo.

Nem todos poemas de Pessoa ou dedilhados no piano traduzem a madrugada, o desafeto de estar sem sono quando todos dormem.

Sonho vulgaridades nestas noites de calor mareadas pelo sopro úmido da primavera.

2.

Outro dia questionaram minha falta de coerência com os que me rodeiam, não pude explicar como é se sentir o carrossel do parque de diversões.

Hoje vi novos desenhos surreais como meus sonhos, preocupantes como aquelas cartas.

Eu quase não me lembro de ontem, forçando a mente nem posso me recordar o que comi, mas tenho hematomas que me concedem a certeza de não ter estado em inércia sobre as fronhas, sob o lençol.

3. 

O cheiro que as coisas tem quando chegam a primavera não é refletido por suas cores, não posso fotografá-los. A única arte é o cheiro que não se pode captar.

Posso descrever as tardes como um barulho de motor bastante distante, este incômodo que já não lembramos de onde vem até perceber que já ignoramos o ruído repetitivo. E o ar demora em chegar aos pulmões.

4.

Os números, as formas e a geometria do espaço precisam ser maiores que minha diminuta pequenez.

As plantas, os insetos e a primavera resistem ao séculos de história e arte, nada que eu possa impedir.




Então aceito.

papel de pão

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014 |

comoveromundo

como ver o mundo
com o ver o mundo
comover o mundo



saudade

sexta-feira, 23 de novembro de 2012 |

Tô procurando algo
que cure esta saudade
ou que aumente
eu gosto mesmo é de sofrer
eu gosto mesmo é de você

Do tempo que as vozes falavam

sábado, 3 de novembro de 2012 |

Me infernizaram a noite inteira. Gritavam debaixo da minha janela, todos meus pensamentos. Falavam tudo ao mesmo tempo e não se podia entender coisa alguma, ouvia-se de longe os gritos, os sussurros e as risadas, até mesmo o choro em coro de todos meus neurônios latejando, rodopiando em busca de respostas para todas as perguntas. Ali, em frente à minha porta, ou debaixo da minha janela, já nem sei. Só me lembro que gritavam em desespero, tentando escapar de mim e eu tentando escapar deles corríamos para o mesmo lado, indecifráveis. Chamei a polícia e pedi que abafassem a baderna, me disseram louca e veio o hospício.

Camisa de força, roupa toda branca, o jornal anunciava qualquer coisa sobre mim, enquanto eu tirava férias no manicômio, lá encontrei outros poetas, tantos escritores, matemáticos e até Deus, que também vestia branco e ouvia vozes, elas viam todas do pátio vazio assombrando nossas noites de verão abafado, pouco vento, pouca chuva, em abundância só calor e gritos. Por fim, com tanta pílula para dormir e tanta sirene para acordar as vozes foram se educando, cada vez mais silenciosas perdiam o dom de viver, de gritar de expôr seus sentimentos.

Falei com o doutor se podia trazer um aparelho de audição, pois eu já quase não as ouvia, só às vezes bem de longe e que até suspeitava que não eram elas, mas as enfermeiras futricando na sala de costura. O doutor sorriu largo, me deu um abraço e eu juro que quase chorou. Talvez ele também tivesse saudade das vozes e não sei por que me mandou ir para a casa. Agora, sem vozes eu já não podia escrever, só sabia era fumar, apreensiva esperando alguma ajuda, alguma voz que latejasse cochichando o que escrever.

Meus poemas já não passavam de duas linhas. Abandonada, a maquina de escrever não terminava nenhuma carta, disseram no jornal que eu havia voltado louca, depressiva e tinha perdido a inspiração. Remendavam trechos de meus textos remontando alguma biografia, avisavam meu fim, me mataram como se eu fosse um voz psicografada nas páginas amareladas daquele jornal e seus cadernos de cultura.

domingo, 14 de outubro de 2012 |

Eu sou poeta
mas pensam
que sou louca

e quando
estou bêbada
pensam que
sou poeta

quando
quando estou
pensam
que sou ausente

Banal

segunda-feira, 1 de outubro de 2012 |

Me disseram que eram a mulheres, com seus corpos assimétricos, a referência de beleza neste mundo. E eu muito discordei. Pra dizer a verdade, até mesmo fiquei irritada. Sempre achei que exigem maquiagem, cabelo arrumado, salto alto e vestido novo das pobres coitadas porque não nasceram com a beleza já pronta do homem.

E muito reprimidas durante toda a história nem puderam explicar que os homens também eram lindos, tiveram que defender-se dos abusos. E também, nada disso importa. Muito mais vaidosos que as mulheres os homens quase nunca aceitam elogios. Fica claro nas intempéries, a mulher vai perdendo sua beleza enquanto mais velha e o homem sempre belo.

É uma pena que tenham tanta vaidade pelo sexo, homens são menos livres. Usam do machismo para se defenderem da liberdade da mulher de usar calças ou saias. Não gostam de verdades, têm medo, não mostram o sexo, não se aproximam um dos outros, são inseguros e imaturos.


Não oferecem risco, podem ser parados por poucas palavras ou acusações. Têm tantos medos quanto preconceitos, não mudam, desde que faziam fogo sentem-se os responsáveis por tudo, mantêm padrões. Enquanto isso as mulheres já tiraram os vestidos e colocaram ombreiras, cortaram a saia e aprenderam a abotoar as calças, agora já sabem até dar nó em gravata.

Mas os homens continuam com medo de abraçar os amigos e redescobrirem o mundo.
Não posam nus.

s o r r i s o

terça-feira, 21 de agosto de 2012 |

Teu sorriso marcou época na minha vida, lembro-me de folhear os jornais buscando alguma notícia pra te dar, só pra poder te telefonar indignada com a decisão da Itália. Uma perna dobrada e a outra cruzada por cima, deitada na cama, horas e horas de sorrisos ao telefone. Até guardava minhas melhores frases pra te contar pessoalmente e assistir-lo, sorriso largo, lábios grossos quase da mesma cor bronzeada de teu rosto. Sabe que às vezes, lembro de alguma história, mas não lembro como aconteceu, só como sorristes depois. E tua gargalhada, não me esqueço, era algo que me saciava, arrepiava meus pelos mais discretos da nuca. Era como se eu acordasse em função de teu sorriso, esperando ele acontecer pra poder sorrir também. Nunca te contei, mas às vezes passava naquela rua só pra te ver pela vitrine, sempre sério, testa franzida e confirmava que não sorrias pra quaisquer

Um sorriso.

Traumas

segunda-feira, 6 de agosto de 2012 |

Fabian Ciraolo
Este contato com meu passado, que eu preciso, mas não quero ter. Reviver minhas nostalgias, enfrentar meus traumas, caminhar sobre meus erros. Sei que é preciso reencontrar o trauma para enfrentá-lo, mas quem disse que quero me recuperar? Se vivo assim tão bem, com eles. E sem eles não sei me orientar.

Quando acordo vejo meus sonhos projetados na parede, ruborizo-me reconhecendo ali meus desejos mais íntimos, meus traumas, minhas verdades que escondo. E sinceramente, não tenho a menor vontade de mudar nada, não quero realizar meus desejos, superar meus traumas, abrir-me.

Melhor assim, como já me acostumei a ser.

Síndromes de eva

domingo, 5 de agosto de 2012 |

Não sei porque nos atraíamos, se ele gostava dos meus cachos, ou era eu quem adorava puxar os dele, se nossos sorrisos largos se encaixavam, ou se eram aquelas largas sobrancelhas negras que eu não podia deixar de olhar. Se o tesão era naqueles ombros largos que me levantavam sem esforço pra cima do balcão ou aqueles lábios grossos que chupavam meu pescoço.

De qualquer maneira iam camisetas pelo chão, meias pra debaixo da cama. Mas era secreto, tínhamos que esperar os amigos irem embora, às vezes era preciso ir também e voltar uma hora depois, pra ninguém desconfiar. Talvez o grande barato fosse isso.

Geoffrey Chadsey's
Ou repousar os olhos na e esperá-lo passar os dedos entre meus cachos, eriçar meu pescoço com a barba, beijar minha nuca, escorregar os dedos e sair como se nada houvesse acontecido, tomando um vinho com os amigos, qualquer amigo.

Depois descíamos pra comprar mais cerveja, entrávamos no banheiro do mercado. A porta trancada, a pia fria, os beijos quentes. 



Chegávamos ao apartamento com a cerveja quente, ninguém desconfiava enquanto nos esbarrávamos propositalmente guardando as garrafas no congelador. Até que o congelador esvaziava, as pessoas iam e a gente ficava. Agora com menos fogo e mais paciência, uma música calma, um filme projetado na parede, uma tragada pra cá, outra pra lá, a sala girava, e os colchões viravam teto, o sofá era cama, as paredes eram chão, o teto flutuava, eramos eva e adão, mil maçãs roubando as pernas das serpentes.

(Datado de 2009)

O título é "homenagem" a este blog.

Direções

segunda-feira, 30 de julho de 2012 |

o sentido dos carros

cortando pela esquerda
ou vindo na contra-mão

o sentido da vida
injustificado
ou vindo na contra-mão

o sentido sexto
o do sexo
ou vindo na contra-mão

o sentido do soldado
a mão na testa
ou vindo na contra-mão



libertar a solidão

quinta-feira, 19 de julho de 2012 |

é preciso aceitar
a solidão
como parte efêmera
do ser.

é preciso libertar
outras teias
imaginárias
da escuridão

Café ou leite

quarta-feira, 11 de abril de 2012 |

cada poema é como um gole de café, deixando a vida mais alerta, desperta e previsível
cada amor é como outro gole de café, aumentando o ritmo cardíaco, o tempo acordado
cada dia é como leite, basta pôr café.