Mostrando postagens com marcador Poemas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poemas. Mostrar todas as postagens

Eu sempre te encontro nas coisas

sábado, 15 de agosto de 2015 |

Eu sempre te encontro nas coisas
Dentro de um livro
Debaixo da cama
Nas frestas da porta
Eu sempre te encontro nas coisas

Procurei especialistas
Psinacalistas
E religiosos
Me benzi
Tomei o passe
Fiz oferenda
Nadei no mar
Mas eu continuo te encontrando nas coisas

Ocupei a mente
Enfrentei a realidade
Segui em frente
E mesmo assim
Sempre te encontro nas coisas

Meus amigos sempre dizem
Que preciso te desencarnar
Exorcizar você das coisas
Mas eu  ainda assim te encontro em mim

Te encontro frestas dos livros
Dentro da cama
Debaixo da porta

E vou sobrevivendo
com esse desespero
que é o medo
de que hora dessas
qualquer conselho destes resolva
e você sair das minhas coisas.

Ainda assim

Eu sempre te encontro nas coisas, em mim.


pelos seus 5 anos de silêncio nos objetos, de ausência carnal, e onipresença mental.
para P.H.

dor

terça-feira, 4 de agosto de 2015 |

Doeu tanto
que dormiu
e sonhou profundo
com desesquecimentos
tudo em branco e negro
evidenciando a linha
da inverdade, da memória

acordou chorando
num quarto colorido
sem sombras pra fantasiar
a dor que ainda doía

quinta-feira, 30 de julho de 2015 |

"verbos loucos
a vida de cada um é poucos
eu sempre tô na média
a vida quando não é drama é comédia
e de rimas fáceis
narro meu presente
meu passado é minha base
e o futuro é esse tempo sempre ausente" (Mc P.H. - mais uma do diário dele)


só quando sozinha eu tenho coragem de ser eu

domingo, 19 de julho de 2015 |

Não peço grande coisa:
poder falar sem disfarçar a voz,
caminhar sem muletas,
fazer amor sem ter de pedir licença,
escrever num papel sem pautas.
Ou então, se parecer demais:
escrever sem ter de disfarçar a voz,
caminhar sem pautas,
falar sem ter de pedir licença,
fazer amor sem muletas.
Ou então, se parecer demais:
fazer amor sem ter de disfarçar a voz,
escrever sem muletas,
caminhar sem ter de pedir licença,
poder falar sem pautas.
Ou então, se parecer demais...

(Poema de Miqiuel Martí I Pol (1929-2003), poeta catalão / tradução de Vanderley Mendonça)

Domingo de chuva

sábado, 16 de maio de 2015 |

O reflexo da janela
mal desenhado
no claro-escuro
da tela do computador
revelando a chuva de domingo
apenas por sua virtualidade
dizia mais sobre minha vida
que um poema inteiro

ou a sociedadade da auto-prisão

quarta-feira, 6 de maio de 2015 |

Este coração, que aqui pulsa em hertz
ativando cada bit deste corpo
e matemático, como a natureza
vai se agrupando em octetos
(como os elétrons de um átomo estável)
e formam meus bytes
que arranhados pela agulha de meus discos rígidos
vão armazenando cada noção de contato
que plugam meus dedos,
como usb's,
de ativação instantânea,
transmitindo energia, informação,
música e alguma outra coisa
pra lá e pra cá,
modificando constantemente
essa minha velha placa ATX
que substituindo as peças
já cambia informação
sem fio algum
além das ondas invisíveis,
que rapidamente,
meus leds
expulsam em lágrimas
novamente decodificadas em bits
e aí chegam
aos teus olhos
tão acostumados a ler poemas,
ou filmes
com toda essa máquina hum@notecnologica
como se eu, meus dedos, meus bits e os teus
fossem tudo a mesma grande máquina.

segunda-feira, 6 de abril de 2015 |

seria impulsivo dizer ser impossível
sob a pulsação do previsto
fazendo do ontem o agora
e pra sempre, depois
demasiado possível
esquecer o ontem
sob a ressaca do depois

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015 |

O pior golpe que eu podia receber era aquela pergunta: para aonde você vai amanhã? Tudo bem que aquela criança nem sabia o que era o amanhã, e era eu mesmo quem lhe havia ensinado, mas era tarde demais pra regressar à filosofia. Eu já depredava no abismo do pensamento.


Eu quase apaguei meu cigarro em uma formiga, mas se tem algo que eu nunca me perdoaria é por matar uma formiga. Aliás, eu nem fumo. E justo aquela hora começou o único filme que eu já vi mais de 10 vezes, ou o único que eu contabilizei tantas vezes vistas. Eu até minto pra mim, mas odeio mentir para os outros.

amanhecendo

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015 |

Ne-nhu-ma vontade de amanhecer
o céu demorando a clarear
quando já havia anunciado o Sol o canto do galo
e os pássaros já avivavam as horas da manhã

Nenhuma vontade de aparecer
senti o Sol se espreguiçando
e enrolando para iluminar

Será, mesmo, que esta madrugada não tem manhã?

8-11-2

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015 |

ou o oitavo onze do dois


E cada Fevereiro
não seria mais doce como outros fevereiros
até chegar Janeiro
e contabilizar um ano triunfado mais
estranho seria tentar explicar
como a notícia ia envelhecendo
quase olvidando o amargor inicial
que havia, em seu momento, chupado todos sorrisos de minha boca
Quantas promessas aos prantos eu fiz
de não esquecer nenhum detalhe
até passarem muitos anos
e encontrar
embolado a outros pequenos objetos
algo que não era meu
e nem poderia devolver

Muda, resignada
chorei por distração
a dor da dor que passou
a lembranças falsas que aquela ida me deixou
aos poucos as lágrimas trouxeram os soluços
e retrocedi até ali
sem ter certeza
do que era verdade e o que eu havia inventado
pra tentar esquecer as mentiras que ouvi

amores contemporâneos

sábado, 10 de janeiro de 2015 |

o dia começou sem flores
não reguei o jardim
nem comecei o livro novo
recolhi o jornal sem intenção de lê-lo
apenas o deixei sobre o travesseiro
como de costume

encontrei uma foto sua na internet
não sei quem é você
mas teu sorriso me fez feliz
guardei tua imagem como um cartão postal
de um lugar que ainda não fui
mas que queria conhecer

fiz rimas com teu nome
me apaixonei virtualmente
resolvi começar o livro novo
já faz falta a ficção.

da infância internada

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 |

De olhos abertos
não vemos quase nada
dizia vovô
e todos nós
andando devagar
com venda nos olhos
reconhecendo as texturas
os cheiros
as posições das coisas

E repetia
- mais da metade do mundo,
está dentro de vocês,
nem adianta buscar aqui fora

Esbravejava que não tivéssemos medo
de anjos, nem de demônios,
que não poupássemos o fogo do dragão que levávamos dentro
fizéssemos visitas regulares às cores
olhássemos dentro dos olhos dos animais
dos humanos
e do espelho

o medo haveria de nos levar a lugares sombrios, úmedos
e a coragem à qualquer lugar que quiséssemos
mas sempre que olhássemos pra dentro
pois o mundo lá fora, era terrível
a ele temeríamos

e tirávamos as vendas, arrepiados. 

Puppet Pendulum - Eva Švankmajerová

domingo, 23 de novembro de 2014 |

as pernas abertas
ali no alto da montanha
de um jeito estranho
como se o mundo saisse
das minhas entranhas
o vento era meu
o mar inteiro era meu
não tinha nada que não fosse meu
Lílian mãe de Gaia
e bastou cruzar as pernas
para descer do pedestal
e voltar a não se ninguém
naquela imensidão

por-do-sol

sábado, 15 de novembro de 2014 |

O pôr-do-sol das Caratingas


o por do sol no Paraguai
tem gosto de foto antiga
dá nostalgia do momento em que o vemos
medo do tempo acabar

sábado, 8 de novembro de 2014 |

inspirações improváveis
porque é vergonhoso aprender quando todo mundo sabe
e deveria ser delicioso
isto não é um poema, é como vêm os pensamentos
como se filmar o olhar fosse possível sem um cérebro câmera
se pudesse registrar todo pensamento
como seria?
nem palavras, nem imagens, às vezes sentimentos, sensações...
de que merda é feita o pensar?

outro dia pensava em bebidas que não tomo
resultado de porres memoráveis
não bebo por pensar racionalmente sobre a questão, a verdade é que simplesmente não tenho vontades, como se o nojo se instaurasse no dna
toda memória devia ser assim, transformada em emoção, repulsa ou receio, afeto ou sei lá
mas temos essa memória imagética, afetiva, conversamos, dialogamos dentro do próprio pensamento
e podemos digitar o que pensamos tão rápido, como se fosse fácil traduzir o que diz o cérebro

ha
escravos de nós mesmos
quando não aprendemos tudo de novo
todos os dias







Tela oca

segunda-feira, 3 de novembro de 2014 |

Eu que já havia
me apreendido a palavras
sido enroscada por dia a uns versos
de Pessoa
tive medo - ali -
de cair dentro da tela oca
de Dalí,
talvez pulasse naquele mar
e me afogasse,
talvez só de estar
ante a tela
por alguns segundos
já fizesse parte dela
me afastei com medo da experiência
por covardia
admito

Cumplencrise

sábado, 18 de outubro de 2014 |

Estou enlouquecendo!
Há meias por toda a casa
Aos pares!
Mal chegado o inverno no Sul
Encontro abandonados,
perdidos ou esquecidos
Meias verdades
Pés esquerdos desaparecidos
Com a meia idade
Mentiras que movem a verdade
Espalhados como meias
Que se perdem quando postas para lavar
Não sei hoje,
Se vivi ou se menti mais vezes
Enlouqueço aos poucos
Às metades

(27-06-2014)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014 |

Terminamos no cinema
Iluminados pelos olhares de grandes astros
Em preto e branco
Lembro do seu rosto pálido
sobre a luz do écran
Nunca vi o final daquele filme
por determinação
Te escrevi anos depois perguntando o desfecho
Durante um mês estive contida de ansiedade
Abrindo a caixa dos correios
Todas sextas-feiras
Como certo coronel aposentado
Depois desencanei
É verdade que tive outros amores
E fui feliz muitas vezes
Mas viramos final de filme
Conto literário
E é por isso que pra recuperar a sobriedade
Escrevo todos dias um poema sobre saudade.
- Analice, personagem de um dos contos nunca publicados.

Quando noé constuiu a arca

domingo, 31 de agosto de 2014 |

Quando Noé construiu a arca
O tempo estava seco
Às vezes o escuro da noite
Era clareado por relâmpagos distantes
E silenciosos

Dona Ana tirou a roupa do varal
Zilá pediu que João consertasse o telhado
As crianças brincaram até se esgotar

A chuva veio no meio da noite
Molhou a sala de Zilá
Assustou as crianças
E umedeceu o tempo

Corrego Amarelo se encheu
Os bagres gozavam o barro
Quando o dia não amanheceu
Era tanta chuva que o Sol não veio

Pouco a pouco a casa se encheu
As crianças sobre os móveis
Depois a família sobre o telhado
Até que não se teve onde subir

E um a um foram engolindo água
Tratando de nadar
Boiar ou mergulhar
Muito beata Zilá antes de morrer
Viu o reflexo da torre da igreja
fazendo sombra na água
_ Seja o que Deus quiser.

Curta: Espelhos

quarta-feira, 13 de agosto de 2014 |

Adaptação audiovisual do poema "Espelhos" de Carlos Marighella. A poética da física, a física do poema, ou o inverso espelhado destas coisas. Reedições em andamento, mas por enquanto comparto este, ainda que este blog já não tenha muitas visitas, fica registrado que de algum modo ainda estou ligada ao que antes fazia aqui. haha