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Homem-pássaro

sexta-feira, 20 de maio de 2016 |

Eu pensava que eu era um passarinho. Eu tentei voar várias vezes, já quebrei todos ossos possíveis. Eu ficava muito chateado de não conseguir voar, todos meus irmãos passarinhos já tinham voado, eu queria migrar com eles, mas eu nem podia voar, eu era muito frustrado, coloquei minhoca na boca de tanto irmão passarinho já, aí por fim eu fiquei com raiva e comia as minhocas sozinho, não dividia.
Aí esse médico me curou, foi bom por que eu não me machuco mais, mas eu continuo sem lembrar nada sobre o meu passado, eu não ninguém, nem um homem, nem um pássaro e continuo querendo migrar.

A menina volta a me questionar

domingo, 3 de abril de 2016 |

A criança: mas como você decide se gosta ou não de alguma coisa?
Eu: decidindo se você acha aquilo bom ou ruim, certo ou errado.
A criança: então você tá dizendo que eu não posso achar ruim e errado, e mesmo assim gostar?
Dois minutos de silêncio. É que eu não posso responder a verdade.
Eu: Não. É uma espécie de ditadura do gostar.
A criança: e o que é ditadura? É mais dura que quebra-queixo?

A menina me questiona

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Antes eu pensava, que se o céu desabasse as montanhas iam segurar, mas agora eu penso diferente: se as montanhas desabam, quem segura o céu? Quem segura as montanhas? E se o chão se abre? Mas já vem tu, com esta história de que o céu não desaba, que ele tá muito longe, e nós que estamos nele. Ideia de doido. Essas fotos de fora da terra que tu coleciona. O mais engraçado, é que em nenhuma delas aparece Deus, se tuas fotos são do céu, cadê Deus, os anjos e os mortos?

dor

terça-feira, 4 de agosto de 2015 |

Doeu tanto
que dormiu
e sonhou profundo
com desesquecimentos
tudo em branco e negro
evidenciando a linha
da inverdade, da memória

acordou chorando
num quarto colorido
sem sombras pra fantasiar
a dor que ainda doía

quinta-feira, 30 de julho de 2015 |

"verbos loucos
a vida de cada um é poucos
eu sempre tô na média
a vida quando não é drama é comédia
e de rimas fáceis
narro meu presente
meu passado é minha base
e o futuro é esse tempo sempre ausente" (Mc P.H. - mais uma do diário dele)


só quando sozinha eu tenho coragem de ser eu

Como morrem os bichos de luz

segunda-feira, 27 de julho de 2015 |

Estive a noite toda desviando o assassinato. Ainda que Haneke insistisse em matar um personagem após o outro, eu pausava o filme e pesquisava um quadro, uma música, uma banalidade qualquer. Então um bichinho de luz pousou sobre a tela do computador. Levemente tratei de tirá-lo, encarei seu formato no escuro, preso entre meu indicador e o polegar. O atirei para o lado, realmente esperava que fosse embora.

O que é a morte? Uma criança interroga a irmã mais velha no filme. E de novo com o peito cheio de ar tento dar atenção à mise-en-scène perfeita de Haneke, penso em algumas pinturas. Não anotei no meu diário de sonhos, mas calculava haver uma semana do sonho com Dalí. Ah, eu ainda não falei do sonho com Dalí. Sonhei que conversava por vias online com o mestre, lembro de perguntar do que era feito o surrealismo e do que era feito a morte. Ele, morto, me dizia que a morte era mais leve que a vida, mas era a mesma coisa e o surrealismo era feito da morte.

Passei a semana imaginando, sem pesquisar quais eram os últimos quadros de Dali, o que ele teria sentido ou pensado. Não sei por que, mas gostava de pensar que ele estava ansioso por morrer, que já havia imaginado tantas vezes como era a morte que não a temia, estava apenas ansioso por conferir, por pintá-la.

Outra vez o bichinho de luz pousou sobre a tela. Delicadamente o atirei ao vento, mas desta vez o senti mais firme entre meus dedos, talvez eu o tivesse machucado ou matado.

Ultimo quadro de Mark Rothko antes de morrer. (1969)
Oh Deuses! Eu havia sonhado com Mark Rothko há um mês, sem nunca antes ter consciência de sua obra. Naquela ocasião sonhei com um quadro que já apresentarei a vocês, mas no sonho o quadro era meu, eu tinha vários pintores, eu só os ordenava, lhes dei a forma e dizia as cores. Primeiro uma paleta com verdes e rosas, e deixava uma goiaba de referência; depois uma paleta amarelo e vermelha, um mamão; uma preta e marrom que eu nunca encontrei a referência e por isto o pintor não encontrava os tons e eu estava irritada; os dois primeiros para mim eram o sexo, e o último eu também não sabia.

As formas a serem preenchidas com as cores das frutas era este:


Outra vez apareceu o bichinho de luz, fui piedosa mais uma vez, ele não estava machucado.


Mas deveríamos voltar ao Dalí. Na verdade eu já não me lembro o resto do sonho e não quero inventar, não sou de inventar a irrealidade, só gosto de inventar realidades, os sonhos e a morte são sagrados em minha mentira.

Há mais ou menos duas semanas meus assuntos têm sido morte, uma conversa na mesa de uma sorveteria, outra na internet, pelo menos três em meus sonhos, na mesa de casa infinitas, impulsos autodestrutivos aos montes. E Haneke coloca uma criança sobre o para-peito de uma ponte, o professor trata de fazê-la descer e ela apenas responde que deu a Deus a chance de matá-la, mas parece que ele não está infeliz com ela.

Desta vez quando o bichinho de luz mais uma vez decora a tela do meu computador decido matá-lo, pela insistência, uma forma de castig... oh! o que eu fiz? Pobre bicho, apenas buscava a luz! Será que a morte se sente assim quando leva uma alma? Será que existem tantas mortes quanto humanos e cada uma só levará um de nós e nunca mais repetirá a mesma falha?



Finalmente, esta foi a última vez que Dalí pintou, seria o rosto da morte? Ou o som dela? Ou nada? Agora só restavam algumas linhas abandonadas ao léu, esperando o contato com o céu? Perdoem-me a rima, não foi intencional. Restavam alguns minutos de Haneke e uma noite de sono inteira sem bicho de luz a me perseguir.

quarta-feira, 6 de maio de 2015 |

Este coração, que aqui pulsa em hertz
ativando cada bit deste corpo
e matemático, como a natureza
vai se agrupando em octetos
(como os elétrons de um átomo estável)
e formam meus bytes
que arranhados pela agulha de meus discos rígidos
vão armazenando cada noção de contato
que plugam meus dedos,
como usb's,
de ativação instantânea,
transmitindo energia, informação,
música e alguma outra coisa
pra lá e pra cá,
modificando constantemente
essa minha velha placa ATX
que substituindo as peças
já cambia informação
sem fio algum
além das ondas invisíveis,
que rapidamente,
meus leds
expulsam em lágrimas
novamente decodificadas em bits
e aí chegam
aos teus olhos
tão acostumados a ler poemas,
ou filmes
com toda essa máquina hum@notecnologica
como se eu, meus dedos, meus bits e os teus
fossem tudo a mesma grande máquina.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015 |

O pior golpe que eu podia receber era aquela pergunta: para aonde você vai amanhã? Tudo bem que aquela criança nem sabia o que era o amanhã, e era eu mesmo quem lhe havia ensinado, mas era tarde demais pra regressar à filosofia. Eu já depredava no abismo do pensamento.


Eu quase apaguei meu cigarro em uma formiga, mas se tem algo que eu nunca me perdoaria é por matar uma formiga. Aliás, eu nem fumo. E justo aquela hora começou o único filme que eu já vi mais de 10 vezes, ou o único que eu contabilizei tantas vezes vistas. Eu até minto pra mim, mas odeio mentir para os outros.

Assopradores de chuva

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015 |

A chuva vem avisando que chega desde longe. Primeiro choveu na casa da tia, que mora da beira do rio, ela ligou pra avisar que o rio subiu até a metade, desta vez não invadiu o terreiro. Felizes com a promessa de uma chuva que subisse a serra a família comprou cerveja, também aliviados que a tia passa bem. No dia seguinte a água deu um adianto, um taxista me avisou, madrugada afora, que a chuva já alcançava Manhuaçu, contando os dias pra que terminasse o percurso e molhasse a Itaúna, as Palmeiras e o quintal os vizinhos começaram a sentir: a cicatriz de donda Adélia, três dias vermelha, ao contrário do joelho de Mário, que só hoje amanheceu com uma dor rasgante que só podia ser chuva. Pelas dúvidas nem Antônia, nem Ednéia lavaram as roupas, Maria que não é de crer em superstição, nem em promessas esticou três lençóis brancos no terraço. Os lençóis, tão esbranquiçados eram o destaque da rua no dia, e nos lembravam a todo momento da promessa de chuva noturna. Pedro chegou cedo e comprou a cerveja pra beber em casa, a dona do bar fechou quando viu que não haviam mais estrelas, e se confundiu o ruído da porta do bar fechando, era a porta ou um trovão? Pelas dúvidas os vizinhos aplaudiram, dona Maria, retirou os lençóis, outro trovão, e por fim um terceiro e fatal, seguido do chiado inconfundível e do frescor da chuva, sorrindo Pedro abriu a cerveja, Ednéia apareceu da janela pra sentir melhor o cheiro. E Sandra, irmã de Antônia, ligou pra Eulália, que mora no povoado vizinho pra avisar "já chegou aqui, amanhã mandamos pra vocês", Eulália, que também crê nos avisos da natureza afirmou "desde cedo os gados se escondem, acho que tá quase chegando mesmo". Acabou a seca nas Gerais, e com muita cautela a chuva vai visitando cidade a cidade e sua chegada é anunciada alegremente com dois ou três datas de antecedência.

Chove!

amanhecendo

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015 |

Ne-nhu-ma vontade de amanhecer
o céu demorando a clarear
quando já havia anunciado o Sol o canto do galo
e os pássaros já avivavam as horas da manhã

Nenhuma vontade de aparecer
senti o Sol se espreguiçando
e enrolando para iluminar

Será, mesmo, que esta madrugada não tem manhã?

8-11-2

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015 |

ou o oitavo onze do dois


E cada Fevereiro
não seria mais doce como outros fevereiros
até chegar Janeiro
e contabilizar um ano triunfado mais
estranho seria tentar explicar
como a notícia ia envelhecendo
quase olvidando o amargor inicial
que havia, em seu momento, chupado todos sorrisos de minha boca
Quantas promessas aos prantos eu fiz
de não esquecer nenhum detalhe
até passarem muitos anos
e encontrar
embolado a outros pequenos objetos
algo que não era meu
e nem poderia devolver

Muda, resignada
chorei por distração
a dor da dor que passou
a lembranças falsas que aquela ida me deixou
aos poucos as lágrimas trouxeram os soluços
e retrocedi até ali
sem ter certeza
do que era verdade e o que eu havia inventado
pra tentar esquecer as mentiras que ouvi

da infância internada

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 |

De olhos abertos
não vemos quase nada
dizia vovô
e todos nós
andando devagar
com venda nos olhos
reconhecendo as texturas
os cheiros
as posições das coisas

E repetia
- mais da metade do mundo,
está dentro de vocês,
nem adianta buscar aqui fora

Esbravejava que não tivéssemos medo
de anjos, nem de demônios,
que não poupássemos o fogo do dragão que levávamos dentro
fizéssemos visitas regulares às cores
olhássemos dentro dos olhos dos animais
dos humanos
e do espelho

o medo haveria de nos levar a lugares sombrios, úmedos
e a coragem à qualquer lugar que quiséssemos
mas sempre que olhássemos pra dentro
pois o mundo lá fora, era terrível
a ele temeríamos

e tirávamos as vendas, arrepiados. 

Puppet Pendulum - Eva Švankmajerová

domingo, 23 de novembro de 2014 |

as pernas abertas
ali no alto da montanha
de um jeito estranho
como se o mundo saisse
das minhas entranhas
o vento era meu
o mar inteiro era meu
não tinha nada que não fosse meu
Lílian mãe de Gaia
e bastou cruzar as pernas
para descer do pedestal
e voltar a não se ninguém
naquela imensidão

sábado, 8 de novembro de 2014 |

inspirações improváveis
porque é vergonhoso aprender quando todo mundo sabe
e deveria ser delicioso
isto não é um poema, é como vêm os pensamentos
como se filmar o olhar fosse possível sem um cérebro câmera
se pudesse registrar todo pensamento
como seria?
nem palavras, nem imagens, às vezes sentimentos, sensações...
de que merda é feita o pensar?

outro dia pensava em bebidas que não tomo
resultado de porres memoráveis
não bebo por pensar racionalmente sobre a questão, a verdade é que simplesmente não tenho vontades, como se o nojo se instaurasse no dna
toda memória devia ser assim, transformada em emoção, repulsa ou receio, afeto ou sei lá
mas temos essa memória imagética, afetiva, conversamos, dialogamos dentro do próprio pensamento
e podemos digitar o que pensamos tão rápido, como se fosse fácil traduzir o que diz o cérebro

ha
escravos de nós mesmos
quando não aprendemos tudo de novo
todos os dias







papel de pão

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014 |

comoveromundo

como ver o mundo
com o ver o mundo
comover o mundo



abraços

terça-feira, 25 de junho de 2013 |

depois do abraço, sempre vem uma despedida verbal

Exagerada

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013 |

Vivendo exageradamente e sobrevivendo ao caos.


Quando o nada

segunda-feira, 26 de novembro de 2012 |

Escrevo-te cartas cotidianas, encharcadas de saudades, ódio, amor e poesia. Escrevo poesias que falam de você, da saudade, das árvores e do calor. Sinto calor. Escrevo versos, crônicas, críticas, dissertações, teses, diários, descrições, narrativas e introspectivas. Escrevo, me inscrevo, envio, recebo, apago e-mails e adio compromissos.

Lílian Alcântara, 2012


Esqueço a garrafa de café destampada e respiro o vapor, injetando cafeína em meus pulmões. Apreensiva por resultados já não durmo, não acordo. Sem manhãs nem noites me espreguiço, espicho, não quero, tenho medo, o medo é irmão da ansiedade. Anseio por resultados, tenho medo deles, bebo o café frio, leio todas as cartas que não respondo.

Vejo fotos na parede, não lembro se sou eu, se ele, ela ou alguém. Um modelo de porta-retratos, talvez. A cena de um filme? Não se sabe. Por aqui já não há realidade, ninguém bate a porta, cortaram a luz, a água e o telefone. Há três dias como pão mofado, não vou sair, não quero ver o lá fora.

Inscrevo, descrevo, me cravo. O café anda meio forte. Imagens, imagens, imagens. É preciso esconder todas, tapar os olhos, ver o negro, a cor do completo, o pronto, o prato feito. Nada de luz, cores, raios ultra-violetas e infra-vermelhos, nada de claro-escuro, planos, preenchimento, luz, contra-luz. Nada. A vida não é cinema. É só um escuro, ou um branco. Não sei se é absorção total ou o contrário, o oposto, o inverso o disperso.

Despeço.
Dispenso o final.

Sexta-feira

sexta-feira, 10 de agosto de 2012 |


Sexta-feira, tudo igual.
O ar ainda está pesado, as lembranças dançam um ritmo torto na cabeça, nada ocupa a mente. Desce uma cachaça pelo peito, que não mata a saudade. Nenhum filme pausa meu olhar, nenhuma música que eleve meus pensamentos.

Penso em algo, não sei em que.
Mordiscando o interior da boca faço afta, abro uma ferida com tanta facilidade, sempre fui boa em abrir feridas, feridas antigas, feridas novas, inesperadas. Também sou boa em remendar, colocar band-aid e dizer que já passou. E olha, ainda que meu inconsciente não cicatrize, eu juro que o consciente sabe muito bem o que é esquecer. Olvidar.

Sexta-feira, tudo normal.
Por aqui pastel, cerveja e guaraná. Minhas pernas balançam no ritmo da ansiedade, da saudade, do velho amor. Amor, quanto tabu pra mesma palavra, quantos níveis, talvez eu só ame a mim mesma. E às cicatrizes da minha boca.

desconexos I

domingo, 15 de julho de 2012 |

será que alguém já registrou, em cartório, uma tv como membro da família?
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será que já tentaram dar utilidade comercial, industrial ou energética à chuva ácida?
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será que vai chover?