Em 2003 minha escola ofereceu algumas modalidades esportivas extra-curriculares para os alunos, bolos de 30 em 30 passavam pelo quadro de avisos observando as opções: Judô (unissex), Futsal (masculino), Natação (unissex) e Dança (feminino).
_ Que merda! Quero futsal feminino. – enquanto as frescas colegas de sala eram as culpadas por não termos a modalidade, só eu me inscreveria no futsal feminino, não formaríamos um time. Foram todas para a dança.
Cansada de apanhar da minha irmã resolvi encarar o judô. Lembro até de comprar o Kimono usado, porque minha mãe não queria "pagar R$60,00 numa roupa que você vai usar duas semanas e depois vai jogar fora, você não vai ficar até o fim das aulas”. Tudo bem! Comprei de segunda mão e fui ser a única menina da turma de 2003 à lutar judô. Todas as segundas-feiras 13:40 lá estava eu, na porta da escola de calça de judô, blusa de uniforme e a parte de cima do Kimono nas mãos.
Terminava de me vestir, dava o confuso nó e começava a me esticar, pra cá e pra lá. Depois batia no Renan, ou no Diego, exibia meu contorcionismo para o professor e ficava lendo as apostilas enquanto ocorriam as lutas. Eu só perdia para dois dos meninos, Yosef, que me girava até ficar tonta depois aplicava o golpe – até hoje não sei se isto é realmente válido, não devia ser – e outro que já não lembro o nome, mas era faixa amarela (ordem: branca, cinza, azul, amarela...).
Quando eu saia de lá, vazada de fome, comia dois pastéis – gigantes – num trailer na porta do colégio, tomava um sorvete na Amaretto, com um amigo que me chamava de Ninja, e voltava pra casa imaginando milhares de possibilidades de usar o judô como defesa, num assalto (foi necessário desabafar uma gargalhada diante da memória ).
Nos outros dias eu me esforçava para fazer os alongamentos e treinar os golpes nas almofadas, ou explicar como a luta funcionava pra minha mãe. O tempo passou e beirando o exame para a entrega de faixas houve um torneio interno na escola, Judô, Futsal, Vôlei, Natação e Dança.
O professor me deu a opção de inscrever na categoria masculina, ou na categoria das meninas bem mais velhas que eu. Inscrevi na masculina com a minha “turma”. Foi montada uma chave que não lembro como funcionava e o Henrique desclassificou o Yosef – que eu temia. Na luta contra o Henrique usei uma técnica de abaixar a cabeça de forma que ele não podia usar meu pescoço pra apoiar a mão para algum golpe, ele ficou um pouco perdido, aproveitei o tempo pra usar a “força do oponente contra ele mesmo” e o derrubei, venci na imobilização (20 segundos) somada ao Wazari que eu já tinha.
Pra mim estava acabado, já tinha vencido Diego e Renan – como sempre - e podia buscar a medalha agradecendo pela sorte. Como o treinador não acreditava que outra pessoa se não o Yosef ganharia ele ficou meio perdido, como anunciaria que “a Lílian venceu a categoria masculina da turma de 2003”?
Marcou “a final” para duas semanas seguintes. Na semana seguinte faltei à aula e no dia da final fui pra escola sem lembrar que era a final. Quando percebi que o tatame de competições estava armado no meio do pátio corri pro orelhão pra ligar pra minha mãe ir me assistir.
Não consegui falar com ela e voltei chateada para o tatame.
_ Agora Lílian e (...) – amém, não gravei o nome da oponente, eu esfriaria a barriga até hoje se passasse por ela na rua e soubesse quem é.
A menina pesava quase meu dobro, duas faixas à frente, eu trabalhava agilidade e ela força. Tentei pensar em qualquer ensinamento do Mestre Jigoro Kano que me ajudasse à usar da tão enorme força dela contra ela. "Quem teme perder já está vencido".
Na empolgação parti pra cima de aproveitei o desequilíbrio dela ao tentar me aplicar um Tachi-Waza, se não me engano um Osotogari, pra “malandrosamente” puxá-la para trás e ganhar um Yuko.
O leão acordou! Foi pra cima de mim me levantou no ar como se eu fosse uma criança de 3 anos e jogou (okuri-ashi-barai), seria um golpe perfeito se eu não fosse expert em velocidade, rodei uns centímetros no alto – ela tinha soltado minha manga, que tonta – e caí de lado, Wazari pra ela.
Quando levantei, ela me deu o famoso “balão” (uki-waza se não estiver enganada) e cai pensando que tinha perdido, não levantei. Quando vi que não tinha perdido, não deu tempo de levantar. Ela me imobilizou e a luta tava perdida.
Algumas meninas da minha sala que assistiam acharam covardia colocar nós duas pra lutar, eu concordo com elas. Fui perguntar ao professor como ficaria a entrega de medalhas e só descobri na data da entrega de faixas – 3 meses depois. Quando depois de uma apresentação de golpes com o Renan o prefeito da cidade me entregou a medalha de prata. E bizonhamente ninguém recebeu a de ouro. A última frase que ouvi na minha vida judoca foi:
De praxe inclinei a cabeça para que ele colocasse a medalha olhei pra “platéia” do salão, pro tatame, pro meu professor, pra medalha, tirei a medalha e sai do tatame sem ela (depois tive que voltar pra receber a faixa que tinha esquecido). Foi meu primeiro protesto na vida. Há! Mas ainda guardo a bendita até hoje, do lado da minha faixa cinza.
Depois que saí daquela escola nunca mais lutei judô, à não ser com meu primo. E a curta vida da "Ninja" terminou numa condromalácia patelar no joelho esquerdo.
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