Papo "grogue"

sexta-feira, 26 de março de 2010 |

Três amigos bêbados, às três da madrugada, persistindo no papo regado à tequila pra tristeza do último garçom, que teria de esperar pela nossa boa vontade de notar quantos tic's o relógio já fizera e voltar pra casa.
O mais velho e mais estudado dos três foi quem saiu com o papo ateísta - para a tristeza do religioso garçom que sabia que estes papos demoram à encerrar:
_Terminei de ler a Bíblia e fiquei sem entender onde Jesus tava na adolescência e juventude, só tem o cara criança e o cara velho. Por que a Bíblia omite uma parte da vida dele?
Me animei com o papo e me armei de ironia:
_ Vai ver tava no treinamento, aprendendo fazer vinho de água. - dei um tempo vagueando pelas visões alcoolizadas - Ele treinou na mesma escola que Moisés aprendeu a partir o mar no meio e tirar leite de pedra.
Demoramos algum tempo pra parar de rir. Nossas vozes eram moles e sonolentas. O terceiro arriscou um palpite:
_ Os jovens e adolescentes não são de Deus, por isto Jesus pulou dos 12 pros 30 anos.
_ Ou talvez o... o... - estalou o polegar no indicador enquanto pensava - Constantino mandou queimar a parte que falava disto.
O estudado:
_ Então não podemos afirmar que o cara era virgem, quem sabe o que ele fez neste tempo? - ouvi a pergunta até o fim e me levantei tentando me equilibrar até a porta do banheiro. O garçom me apoiou pra que eu conseguisse completar a missão. Saí de lá com uma dúvida, arremessei a pergunta:
_ Qual mesmo o seu nome?
_ Robson - falou um pouco receoso - Robson - reafirmou confuso - e o seu?
_ Pode me chamar como quiser, não me prendo à vocativos. - me equilibrei nos únicos dois pés que tenho, bêbabo precisa de quatro, e procurei a mão dele pra cumprimentá-lo. Sentei no balcão, dei dois tapas na mesa e gritei: uma Rosa Mineira pra mim! Sal, limão, cachaça, golada e voltei à mesa.
_ (...) mas eu não entendo, tem que ser fluminense e pronto. Carioca é só da capital!
_ Me botem a par do assunto?
_ Por que "Campeonato Carioca" se é do estado do Rio e não da cidade? Não devia ser fluminense, ao invés de carioca?
_ Uai! Então já tão no futebol? Passaram pela política, já?
_ Não, pra política te esperamos. Vai votar em quem na sua primeira eleição? - os olhares se voltaram pra mim, inclusive o do tal Robson.
_ Tem algum candidato que vai investir em educação? - perguntei sem gaguejar.
_ Se tem não é o Serra! - o comunista.
_ Nem a Dilma. - o estudado.
_ Mas eu não voto em Serra, em montanha, essas coisas. - um tempo e lembrei que faltava a oponente - nem em PT e derivados. - um alívio geral.
O garçom, impaciente, ligou a TV.
_ Tava pensando em poesia.
_ "Dos lábios que me beijaram
Dos braços que me abraçaram
Já não me lembro, nem sei
São tantas as que me amaram!
São tantas as que amei!
Mas tu - que rude contraste
Tu que jamais me beijaste
Tu, que jamais abracei
Só tu, nesta alma, ficaste
De todas as que amei
_ Uau! Paulo Setubal! - clap clap clap os três pares de aplauso.
Olhei pra eles evitando os olhos e antes que dissesse algo um deles falou:
_ Nunca confie num bêbado, mas o poema é parecido com isto.
O segundo interrompeu:
_ Acho que devíamos dormir antes que esqueçamos o caminho de asa ou - pausa pra um soluço - arrumemos motivos pra acordar arrependidos.
Três bêbados trôpegos voltaram pra casa de braços atados num passinho que - ninguém sabe porque - afirmamos ser holandês.  

1 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom!

... flui ...

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