Bala de hortelã

domingo, 13 de junho de 2010 |

Sabe aquela pessoa que já se foi pra outra vida, aquela que ninguém sabe se existe, e ano pós ano você continua sem esquecer? E às vezes se pega chorando em luto, não deixando acostumar-se à ausência? E as cenas que rodam na sua cabeça? Aquela bala que vocês compraram com cinco centavos de cada um e tiveram que partir depois, aquele dia que um dos dois ficou doente e o outro é quem quase morreu... Não faz bem pensar nisso, faça um texto e jogue tudo fora, com a simplicidade de quem descarta um ás de copas inútil da mão de Poker.

Não, no Poker o ás nunca será inútil.

Mas é que a cena já não sai da minha cabeça. Foi numa manhã fria, mas ensolarada. Na sombra eu pensava que iria congelar. Nem parei pra pensar que bastava atravessar a rua pra sentir o sol matinal me abraçar. Vi de longe alguém de ombros largos, olhar desinteressado e passos rápidos. Era ele.

Do outro lado ele via uma menina ansiosa, de olhares fixos e sorriso triste. Quando terminou de aproximar-se dela ofereceu-lhe um abraço, que ela, por sua vez, aceitou. Abraçados compartilharam do frio que sentiam até aquecerem-se reciprocamente.

Fiquei analisando as possibilidades que eu tinha. Um vocabulário tão vasto e nenhum conteúdo pra ser dito. Eu nem sabia mais por que estava ali, e o que eu esperava daquela manhã. Acho, que eu queria ir pra casa.

Observando o vazio que ela sentia ele resolveu dar um palpite, um chute em falso. Pra ver se despertava sua atenção.

_ Que tal sentar do outro lado? - esperou uma resposta em vão - Lá tem Sol. - continuou esperando. Puxou-a pelo pulso e atravessou a avenida sem muita dificuldade.

Eu sei que ninguém gosta de monólogos. Eu sei que eu devia ter respondido "sim" pra vir pro outro lado. E também sei que ele entendeu, melhor que eu, o por que de eu ficar enrolando e não dizer nada. Era tudo tão ruim, eu só queria estar em casa. Não queria ter que explicar em detalhes o que ele já sabia que acontecera na noite passada, não queria ter que me abrir, chorar de novo, necessitar de outro abraço e de um sol quentinho. Seria melhor estar debaixo do meu cobertor sonhando com cenas que eu não sabia que já tinha visto.

_ Não precisa falar nada. Você não tem que se explicar. - arregalei os olhos. Que bom que ele tinha entendido, mas se não fosse pra me explicar o que mais eu faria ali? Arrisquei umas sílabas:

_ É... n-n-nãã-o. Quer d-dizer, obrigada! - lágrimas rolaram pelo meu rosto como se eu tivesse dito as palavras mágicas que ordenavam-nas escorrer.

_ Não tem nada pra agradecer. Nem pra chorar. O que te importa ficou. Pessoas como eu nunca vão te abandonar.

Minha boca mantinha um sabor amargo de quem ainda não engoliu as desilusões. Apalpei os bolsos buscando uma moeda que comprasse qualquer bala de hortelã. Achei cinco centavos.

Ele observou-a pescando alguma coisa nos bolsos e ficou surpreso quando ela abriu a mão com cinco centavos. percebeu que ela conferiu a moeda várias vezes, como se quisesse que o valor aumentasse. Então resolveu ajudá-la. Enfiou as mãos pelos bolsos também. Achou outros cinco. E sorriu:

_ Já dá pra comprar uma bala.

Assustada, mais uma vez, ela perguntou:

_ E como você sabe que eu quero uma bala?

Ele até pensou em explicar que só estava brincando, que o dinheiro dos dois juntos já era suficiente pra comprar alguma coisa, por menor que fosse. Mas preferiu não.

_ É que eu também quero uma. - ela respondeu com uma "hmm" que nem necessitou abrir a boca para ressoar entre os dois.

_ Então vamos.

Compraram uma única bala. Ela tentava partir no meio certo, com os dentes da frente. E ele observava como ela fazia aquilo errado. Qual era o medo de colocar a bala nos dentes do fundo? Se ele tivesse nojo, ou algo parecido, não pediria pra dividir.

_ Me dá essa bala. - a frase foi seguida por um barulho de bala partida. Deu um pedaço pra ele e guardou o outro na boca. Foi, lentamente, trocando o sabor amargo do seu dia por um ardido hortelã, ou era menta? Sorriu pra ele agradecendo por ainda estar ali. E ficou satisfeita imaginando que "pessoas como ele nunca vão me abandonar".

Agora, quase cinco anos depois, ela pensava constantemente onde ele estava. Teria ele abandonado-a? Ou ela é que já o abandonara, sem saber onde ele estava. E onde quer que estivesse, mesmo que já não estivesse, ele ainda estava com ela? Tirou uma bala de hortelã do bolso e mordeu metade.

1 comentários:

Adenildo Lima disse...

ah, lílian, o poeta foi embora
só deixou mesmo os versos...