Indignação

quarta-feira, 23 de junho de 2010 |

Não é fácil a vida de prisioneiro. É de conhecimento da maioria as condições de vida precárias e o medo da morte que acompanha a vida de quem perdeu a liberdade. Eu nunca tive muita coisa além da Liberdade, cresci vivenciando o que o restante da sociedade chama de crime. Onde nasci vale o olho por olho e dente de por dente. Pra quem tá de fora parece ser fácil ignorar. Mas o realismo persiste.

Sempre me pareceu estranho o contato da minha sociedade com o restante. Na hora que precisamos de ajuda ninguém tem coragem de subir o morro. Mas quando querem descontar a raiva punindo alguém sobem e desgraçam todo mundo. É difícil pensar em descer a colina pra estudar onde vão te ridicularizar e conseguir um emprego que paga um salário mínimo pra trabalhar 8 horas por dia. Enquanto do lado da sua casa seus amigos ganham aquela quantidade por dia e nem trabalham tanto.

Uma coisa leva à outra. Você entra pelo dinheiro, o tênis de marca e a roupa nova, mas quando vê já é mais um. Mas e daí? Todo mundo aqui é assim. Ainda assim você é uma pessoa de bem, ajuda quem precisa, tem amigos e inimigos como todo mundo. Às vezes até uma filha, e é isso que me emociona, isso que me dói. Eu não tinha muito além da liberdade, tinha a liberdade e minha filha. Agora não tenho nada mais.

Eu só lembro do cacetete descendo nas minhas costas. Eu, esparramado no chão tentava me conter. Minha filha chorando e esmurrando as pernas do guarda, tentando comovê-los, impedi-los. Um bruto a jogou pra longe, tive vontade de chorar. Tantas vezes que via a mãe dela corrigindo alguma besteira que tinha feito, com tapas, eu sentia aquela vontade de chorar. Agora sabia que ela sentia dor igual.

Indignação, é tudo que sinto. Cada dia vou me degenerando neste lugar. Sou só mais um por aqui. Lá fora eu era o único. Nunca entendi que homem livre tem direito de tirar a liberdade de outro. Nunca entendi nada que não fiz.

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