De dentro do útero

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011 |

As vizinhas ainda se encontram pra ler o evangelho todas as terças-feiras. As crianças ainda se escondem nas construções abandonadas pra jogar pique, olho da janela lembrando que um dia o pique estava comigo. Nos feriados prolongados os moradores da frente ainda discutem ameaçando vassouradas. As tias solteiras ainda cochicham fofocas escoradas pelos portões de suas casas.

Tudo parece igual, mas só parece.

As vasilhas de plástico já não ficam na terceira gaveta, aliás, trocaram o armário. Meu guarda-roupas virou um depósito da casa. Nas paredes já não têm os meus retratos. Não reconheço os papéis nas gavetas do meu quarto, este lembrete envelhecido pregado na tela do computador não imagino o que seja, mas a letra é minha. Me sinto tão intrusa em minha própria casa que já não tenho consolo.

Tudo parece igual, como se eu não existisse.

Os vizinhos me miram como se eu fosse um fantasma, alguns chegam perguntar se sou a "tal filha do Pedrinho, que se mudou pra muito longe". Alguns parecem nem ter dado falta, me encontram na rua e perguntam o que estou fazendo, se assustam quando explico. E a minha universidade então? Parece um projeto secreto do governo americano, nem os wikileaks se dão conta de que existe.

Meus livros se cansaram de serem lidos. Minha lista de filmes já acabou, renovou, acabou e agora estou inventando. Os amigos que ainda não vi também não tenho esperanças de ver mais. Mas quem eu mais queria ver, talvez nem veja nunca mais. De alguma forma da monotonia que me cansa agora já sinto saudades.

Tudo continua normal, como se eu não fosse embora.

E o céu então? Aqui da minha janela vejo metade céu, metade cidade. Tem dias que tem tanta estrela que enjôo. As nuvens de algodão que nunca vejo no Paraná, os vários tons de azul, o avermelhado na véspera do dia frio, só eu sei o quanto essas visões me fazem falta por lá.

É tanta nostalgia antes da hora. 

1 comentários:

ítalo puccini disse...

nostalgia antes da hora é frase lindíssima que fecha muito legal esse texto com um ritmo tão bom.