É como se só na infância eu fosse o que eu realmente era. Eu tinha um medo intenso de crescer e esquecer de mim mesma, como faziam os outros. Meu pai já não empinava pipas porque tinha que assistir o jornal, minha mãe já não costurava a roupa das bonecas porque precisava temperar o feijão, mas eu seguia ali fiel à minha bicicleta.
Hoje já não entendo que graça tem dar três voltas no quarteirão, sem chegar a lugar algum. Que sentido faz construir castelos de areia, que não importa quantos guardas tenha, será derrubado pelas bordas do mar. Não lembro o que eu tentava descobrir observando os postes se acenderem à noite, ou o que eu espiava deitada no chão da varanda do quarto dos meus pais.
Algo ali, aos meus 6 anos, já denunciava meu espírito de revolta, comandada pela minha irmã, nossas greves duravam várias frações de hora, batendo as panelas em volta do quarto principal, esperando que meus pais acordassem. Também era foragida saltando os sofás e me escondendo atrás das cortinas pra não tomar a chinelada pelo vaso quebrado.
Talvez eu tivesse menos infância se minha mãe soubesse que era só colocar um mata-burro no caminho pra que eu me aquietasse. Falando em mata-burros quem foi que me falou pra fechar os olhos quando sentisse medo? As três primeiras travessias que fiz - de bicicleta - em um passei com os olhos fechados, esperando o guidão parar de bater para abrir os olhos novamente.
E a noite, como nos bons contos, eu saía para caçar com meu pai: botina, bornal, fisga e lanterna nas mãos. - Cuidado com o mato alto!, - Cuidado onde pisa, - Ilumina o caminho, - Essa rã é venenosa. - Aquilo é um sapo e aquele outro é perereca, não se come.
Mas nada me fazia mais adulta que colocar uma almofada na poltrona do carro e dar voltas no terreiro, dirigindo sozinha, com meu pai instruindo do banco carona. E contar os dias pra ter 18 anos e uma carteira de motorista, que mal a pequena Lílian imagina ainda não saiu aos 23.
Volta e meia me pego pensando quantas dividas teria eu com minha infância. Cresci e não sei se completei minhas antigas vontades, se as perdi, ou se simplesmente deixei cair no esquecimento, como mais temido.
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