Carrego inquietamente em minhas lembranças um sonho estranho. À medida que passam os dias algumas cenas vão sumindo de minha mente e aumentando ainda mais essa inquietude de tenar descobrir algo de importante nas entrelinhas do subconsciente.
Eu havia viajado para o interior do Uruguai, estávamos todos visitando uma amiga. Tínhamos algo a festejar, mas com cuidado, pois a casa era do tio desta amiga. E ali, quase todos, reunidos numa sala de TV planejávamos os próximos dias. Dentro de mim queimava uma ansiedade por sair e ver o mundo lá fora. A cidade e outras pessoas. Algo soava a perigo.
A tarde já ameaçava escurecer, algumas estrelas precoces brilhavam no azulado do céu, competindo paisagem com o sol que tocava todo horizonte. Ouvi alguém dizer que era melhor sairmos amanhã, ou nem sairmos, pois:
_ Estando nós em uma região fronteiriça com essa Itália pós-guerra... é perigoso lá fora.
A informação de que estávamos na Espanha, que fazia fronteira com a Itália era muito estranha. Espremia os mapas de minha cabeça pra ter certeza de que ouvia coisas absurdas. Espanha e Itália? Guerra? E o Uruguai? Bem, se eu não estava no Uruguai, não poderia visitar alguns amigos que ansiava. Resolvi sair sozinha pra passear.
Fui andando enquanto escurecia, passei por uma cidade minúscula, umas 13 casinhas. Depois tinha um longo rio que refletia a lua cheia. Do lado de lá uma mata fechada. Fui andando até chegar à tal Itália-pós-guerra. Poucos postes acesos, muita fumaça de cigarros, prostitutas e pessoas suspeitas, um pequeno grupo com fantasias monstruosas. Ameacei a sacar minha câmera e tive medo, uma criança me persuadiu pedindo a câmera, a bolsa, a blusa de frio, qualquer coisa. Todos falavam francês e eu não conseguia entender muito, menos ainda falar.
Tive medo, muito medo. Pensei que talvez estivessem preocupados comigo do outro lado. Tentei voltar. A criança roubou minha câmera, fui atrás dela tentar recuperar, entrei em beco úmidos e medonhos. Depois não sabia voltar. Um senhor calvo, de poucos fios brancos, gordo, calça preta e camiseta branca, um pano de prato sujo na mão estava parado na porta de um bar de luz amarelada. Tentei entrar e ele riu, me disse algo em italiano, tentei responder em espanhol, português, inglês, polonês, qualquer coisa. O velho - que agora tinha um cigarro na boca - me apontou uma direção. Segui seu dedo, avisei de longe o rio.
Tentei me aproximar do rio, mas sempre dava em ruas sem fim. Minhas mãos e pés suavam. Tirei uma blusa de frio, tinha medo de tirar a bolsa pra vestir a blusa e me roubarem o que me restava. Apesar de todos estarem com blusa de frio o ar que eu respirava era quente, não sei o porque da blusa. A ansiedade e o medo por fim me acordaram.
Passei longos minutos sentada na cama tentando refazer aquelas cenas. Venho relembrando cenas de filmes do neo-realismo italiano encrustadas neste sonho. Inclusive de filmes que não vi. Sinto frio e calor repassando a película.
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