Caos total

segunda-feira, 1 de outubro de 2012 |

Parte I

Mal entrei no táxi e o motorista já começou a desabafar, sempre acho que sou terapeuta de motorista, fico calada enquanto falam, por fim digo "é aqui, pode parar" e está encerrada a sessão. Aquele, como a maioria, tinha o dom de reclamar, xingou os motoqueiros, amaldiçoou os sinaleiros e o prefeito da cidade, apontou pra uma nuvem carregada e disse que ia chover, que ontem tinha chovido e domingo não fez churrasco porque também choveu, mas para minha surpresa não culpou o movimento de translação da Terra,  nem as massas de ar ou a meteorologista do jornal, disse que a culpa era do Sr. Senna o dono da Usina, afinal era ele quem atirava sei lá o que no rio, além de liberar milhares de substâncias que aquecem a cidade, deixando o clima instável, cheio de chuvas para acabar com a vida dos churrasqueiros de domingo.

Quando achei que estava acabando e disse pra entrar na próxima rua, só comprei mais um conto. Me disse que, apesar de ser um absurdo, tinham trocado a mão daquela rua e agora era preciso contornar lá pela Av. Castelo Branco, e todos sabem como a avenida tá cheia aquele horário e que absurdo era ter nome de ditador numa rua. Nesta cidade ninguém trabalha direito, nem é serviço público, que de praxe nunca funciona - falava cuspindo -, afinal na última semana tinha ido comprar um livro e não podia identificar a funcionária, pois ninguém usava uniforme, além disso ela nem sequer sabia que livro ele queria, onde já se viu uma livreira que não sabe o nome de um livro tão importante? No tempo dele não era assim.

Por fim chegamos, desci na casa do meu primo e já fui não reparando a bagunça como solicitado. Não reparei que tropecei em um tênis atirado enquanto equilibrava as bolsas, não reparei que não havia um espaço livre pra repousar a mala, afinal, me pediram para não reparar.

Parte II

_ Não repare mesmo. É que estou trabalhando demais e continuo sem ganhar dinheiro, é irritante como sempre pedem uma atualização no último dia antes de entregar um trabalho e apesar de ter que refazer o desenho, não me pagam dobrado. E deixe suas malas ali perto daqueles panos, depois te conto a história desses panos, eu não virei costureiro, nada parecido, mas parece que acham que sim. Você está meio gripada? Está meio fanha, mas nem vou te levar ao médico, aqui na cidade não tem médico que preste, aliás, não tem nada que preste, você viu o quanto está chovendo? Ontem fui debaixo de chuva ao posto de saúde, e o doutor nem olhou pra minha cara, disse que em tempos como este é normal pegar um resfriado. Normal? Eu fiquei dois meses melhorando e piorando? Não é normal, aliás, este tempo não é normal, quando eu era pequeno não era assim, você sabe da Usina, né? Acho que você sabe. Você lembra? Lembra quando vinha aqui e não chovia tanto? E a gente corria em volta da casa da vovó? Aliás, não vou tomar remédios porra nenhuma, onde já se viu?

Eu lembrava, lembrava sim, que não precisava dar a volta pela avenida Castelo Branco e que não chovia tanto, não existia usina, a casa era arrumada e os médicos olhavam na cara de seus pacientes, perguntavam como vai a sra. Sua Mãe e receitavam alguma coisa pro resfriado. Eu lembrava, mas fui logo perguntando onde colocar minha mala, porque também lembrava de um tempo que os anfitriões sendo homens fortes carregavam as malas da meninas frágeis, como o mocinho e a mocinha dos filmes clássicos de Hollywood.

A história não estava nem começando. O primo ainda tinha que me explicar seu trabalho, era simples, ou devia ser simples, mas não era. Algo assim. Alguém precisava de um desenho, uma logo ou um desing e mandava o pedido, ele fazia, depois que estivesse bom recebia e mandava o produto final. Mas todos os dias, recebia e-mail de pessoas pedindo desenhos em troca de "reconhecimento" ou por "valores módicos" descontados com "muito amor e carinho". E a história dos panos era uma mulher louca que tinha deixado lá, dizendo que desenhista é tudo igual, desenhar mapa, roupas ou logomarcas é a mesma coisa, pra ele desenhar o uniforme da livraria dela.

Parte III

Acordei na quinta-feira com frio e barulho de chuva, mal tinha coragem pra me levantar quando ouvi o barulho da TV na sala. Sabia que tinha compromissos e o dia era longo. O primo fez questão de me levar até o local da primeira entrevista, contornou pela Av. Brasil e me disse em tom satisfeito que finalmente tinham percebido que era bem melhor sair pegando a Av. Brasil, que pra chegar em casa vinha pela Castelo Branco, mas pra sair pegava a Brasil, que ótimo que algum departamento funcione nesta cidade. (Que ironia são as opiniões adversas, não?).

Pronto, é aqui - encerrando o assunto, como se eu tivesse falando demais - me liga que eu te busco. Logo desci e fui fazer a cobertura do lançamento do livro do Escritor Famoso de Auto-ajuda. Cheguei direto na taça de vinho, é sempre bom tomar um vinho pra se soltar e conversar com as livreiras, são elas quem nos dizem o que realmente vai acontecer. Quem é o cara e as fãs, elas me dizem o que não devo escrever, mas o que devo saber antes de escrever.

Depois de dizer bom dia ouvi uma milonga sobre a chuva, a usina, o prefeito e o departamento de trânsito, que o escritor não havia chegado, devia estar perdido no trânsito louco da cidade e que não iria ninguém também com aquele frio e aquela chuva ninguém sairia de casa, só ela e eu quer tínhamos essa coragem de não pegar um atestado pra dormir o dia inteiro e teríamos que ficar ali esperando um escritor que talvez nem apareceria para suas fãs, que também não apareceriam, como no dia em que a terra parou. Ou tinha pego um resfriado e seria mal atendido se dependesse da saúde daquela cidade, logo ele, uma figura tão importante. E começou a me contar, que não sabia como trabalhava em livraria, bom devia ser meu trabalho, só tirar umas fotos do escritor e voltar pra casa, escrever que o evento foi lindo e dormir tranquilamente com o barulho da chuva.

Porque, ainda que parecesse fácil, a vida de livreiro era difícil. Semana passada um senhor foi lá procurar um best seller que ele não sabia o nome, só a cor da capa. E me mostrou quantas listas de best seller diferentes saiam num mês, disse para olhar ao redor e ver quantos livros amarelos tinham na prateleira, que além de tudo estava trabalhando com a roupa do fim-de-semana porque um idiota de um desing estava fazendo corpo-mole pra desenhar um par de roupas pra ser o novo uniforme da loja, provavelmente era só pra receber mais. E olha aquela criança com o livro na boca, urrou em ar de desespero sumindo entre as prateleiras.

Depois de um bom capuccino no café da livraria, umas rosquinhas e uma passada de olho pelo jornal da manhã percebi que naquela cidade o prefeito também reclamava, tinha deixado uma nota informando que o governo estadual, por não ser do mesmo partido que ele, recusava-se a liberar a verba pra construir o viaduto que desafogaria o trânsito na Castelo Branco e que a lei de mudança do nome da avenida já havia sido votada pela câmara de vereadores, agora votariam um novo nome em assembléia geral aberta aos cidadãos da cidade, que - como podíamos ver - ele estava fazendo de tudo para atender a demanda municipal, mas o problema estava lá em cima. E...

Parte IV - Final

Não pude terminar a leitura, um senhor pedia permissão para ocupar a cadeira oposta à minha na mesa. E me perguntou se não era um absurdo trocarem o nome da maior avenida da cidade, que isso não adiantava iam dizer "a Avenida Nome Novo", qual? A Antiga Castelo Branco, e este seria o nome novo Antiga Castelo Branco, porque ninguém aprende nome novo e depois fica todo mundo louco, até os carteiros, coitados. Tanto é que ainda chamávamos amido de milho de Maizena, palha de aço de Bombril, ninguém gosta de aprender novos nomes e este prefeito só queria era criar rebuliço, aparecer, afinal, este partido só quer é aparecer, bastava pensar um pouquinho na história do partido pra lembrar que - mesmo a nível nacional - só queriam aparecer, não melhoravam, nem pioravam nada. Deu um sorriso sarcástico, pelo menos não pioram como nosso governador, isso eu tenho que assumir.

E fui salva pela livreira dizendo que o escritor havia chegado. Pediu desculpas pelo atraso, deu algumas explicações, tentou não culpar a cidade, para não ofender os moradores, falou do livro, deu autógrafos, respondeu minhas perguntas, pousou para fotos, tomou alguns vinhos e foi embora, já estava atrasado pro lançamento em outra cidade, tinha que pegar o helicóptero da editora em cinco minutos. E eu que nem tinha helicóptero cheguei antes, mas não queria pensar nisso, estava pegando a mania de reclamar.

Resolvi voltar de ônibus, pra não falar com ninguém. Mas aí, pra minha surpresa, aquela cidade era mais simpática do que eu imaginava. Sentou um senhor de branco do meu lado, pensei logo que era enfermeiro, um médico nunca...
_ ... nunca estaria andando de ônibus, não é verdade? Pensam que todos médicos são ricos, pois eu trabalho pro SUS e como já deve ter visto nada público funciona nesta cidade, pois a saúde também não, recebo reclamações do meu trabalho e nenhum elogio. Se eu te conto o que eu passo...

Apertei o botão de desci do ônibus, já era hora de tapar os ouvidos, antes que enlouquecesse.



Sei que é um dos textos mais longos que já postei aqui, mas não pude evitar. Como inspiração os blogs que linkei, deixo os endereços abaixo. Andei percebendo que um reclama da profissão do outro e cada profissional reclama de seus clientes/pacientes/alunos. Foi automática essa ideia, nada está bom, as pessoas reclamam de atenderem e serem atendidas. Não é nenhuma lição de moral, é só uma crônica sobre o que andei observando. Faltou só encerrar com o primo desing não vendendo sua brilhante roupa e fazendo essa cena aqui.

1 comentários:

Alexandre disse...

Um primor. MESMO.