A história era sobre uma cidade que desenvolveu leis próprias, não se sabe se o delegado foi quem começou a não fazer-se cumprir certas leis ou se foi o próprio prefeito quem disse, mas há um boato de que tudo veio de uma manifestação popular, as pessoas já não faziam denuncias do cheiro de substâncias ilícitas que vinham do pátio do vizinho, não era uma cidade de abastados moradores, então não haviam roubos.
A única resistência veio da Igreja, mas as beatas logo contiveram o padre, disseram que assim todos estavam em paz e não havia mal nenhum naquilo. Aos poucos sem roubos, sem estupros, sem censura, sem senso, sem estatísticas, sem ninguém incomodar ninguém a cidade foi mudando.
Houve uma manhã que três moradores reconstruíram a antiga ponte quebrada há muitos anos por uma enchente, a verba do governo estadual nunca havia chegado e promessas sobre o assunto havia eleito muitos prefeitos. Por falar em prefeito, o prefeito tirou as cercas de suas terras e deixou que os agricultores a ocupassem para plantar milho, milho que servia para fazer fubá e farinha pra toda cidade.
Houve certa repressão do governo estadual, mas por se tratar de cidade tão pequena não chegou a existir guerra alguma, apenas cortes de verbas até que fosse restabelecida a ordem. Foi ai que os moradores derrubaram as três pontes que ligavam a cidade às outras. É dizer que fez-se uma ilha. A única ligação que restava da cidade com o resto do Estado era a mata, uma mata densa sobre a montanha, não se sabe de ninguém que chegou por ali, mas ninguém nunca negou a possibilidade de que em algum momento curiosos viessem a percorrer dito caminho.
Vivendo a cidade dela mesma, sem ligação com nenhum outro lugar ou poder maior alguns problemas começaram a surgir, alguns foram resolvidos outros não. Primeiro acabaram os remédios, mas logo as beatas da igreja providenciaram uma plantação de ervas em seus quintais e curaram muita febre que veio por lá. Depois apareceu um senhor, e este não se sabe se entrou pela mata, atravessou o rio nadando ou se era dali mesmo, que passados três dias dormindo bêbado na praça central o dono do bar recusou-se a vender cachaça pra ele, enervado quebrou dois copos e uma cadeira. Outros clientes do bar deixaram o homem imobilizado, as beatas ajudaram no trabalho fitoterápico pra desintoxicá-lo, os vizinhos o alimentaram e seja por milagre, como disse o padre, ou pelo sentimento de pertencimento e gratidão o homem perdeu os rancores e começou a trabalhar na horta com os demais.
Quando os pregos e arames começaram a acabar veio a reciclagem e aos poucos alguns materiais deixaram de ser usados, eletrônicos já não existiam, apenas elétricos e mecânicos. O que era um ponto negativo, pois alguns mecanismos eletrônicos os haveria ajudado muito.
Não sei o nome de nenhuma personagem, ou identificar no mapa em que local ficava a cidade, ouvi por fofoca e não me pareceu muito verídico. Também não sei se tudo continua de pé ou se a cidade afundou-se em si mesma. A verdade é que esta cidade me veio a cabeça, confesso, fui eu quem a inventei, mas pra mim que toda invenção é também realidade. Estando assim convencida de que a cidade existe. Não a chamo de revolucionária, nem nada, só a encontrei muito simpática e suas lendas me divertem. Ontem, antes de dormir, ouvi uma moradora, uma das beatas - que como todos outros aí, não tem nome - contar sobre uma poderosa energia que protegia a cidade dos "de fora", logo apareceu um homem rindo e disse que na verdade não havia energia nenhuma, mas é que estavam tão cientes do que acontecia ali que não iam dar ouvidos a qualquer retardado que os viesse tirar dali.
Eu, com medo de parecer uma retardada para eles, apenas fico calada enquanto me contam suas histórias.
Se tenho entendido bem, o único que não está feliz aí é o padre, este ainda não aceita o isolamento da cidade, está tentando ligá-la de volta à diocese.
Toda noite, antes de dormir, subo a montanha, atravesso a densa mata e chego à cidade. Converso com alguém, escuto uma história. Às vezes vem outro morador me dizer que a primeira é falsa. Lembro-me de um que me disse que ali todos inventavam histórias a turistas como eu, porque era muito engraçado ver nossas caras acreditando em qualquer coisa, que não podíamos aceitar aquela cidade como ela era, por isso, sempre se aproveitavam de nossa curiosidade para se divertirem um pouco. E talvez tenha razão, metade do que ouvi ali deve ter sido mentira, mas insisto em ouvir aquelas mentiras de novo e outra vez. Não me importa a veracidade do fatos, apenas o prazer de ouvi-los.
A última vez que fui aí conheci um pequeno anão que usava roupas engraçadas e se dizia mágico, não consegui acreditar em nada do que me dizia, vejam só, como a vestimenta me manipulou, mas me disse algo que me deixou pensando. Disse que se a cidade existia, tudo que me contavam era verdade, mas se a cidade era fictícia então seria coincidência demais que aquelas histórias existissem em algum lugar. Por fim, me acusou de imaginar tudo aquilo. Ou tudo isto, se preferirem.
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