Meu quarto em preto e branco

quinta-feira, 10 de abril de 2014 |

Algo me acorda, não sei se a luz que invade a janela sem pedir licença, se meu corpo exigindo atitude, água e comida ou se posso culpar os gritos, músicas e motores dos vizinhos. Fecho os olhos pesadamente e tento reabri-los outra vez para ver as sombras que dividem o quarto num efeito de claro e escuro. Quase durmo outra vez, tenho a impressão de já ter acordado outras vezes mais nesta mesma manhã. Já estou confusa, não sei se sonhei que acordava, se tentei acordar e não consegui, que dia é hoje ou se estou me lembrando de outras manhãs. Com esforço me levanto, ainda tentando lembrar o que sonhava antes de ser perturbada pelo dia.

Já atravessando rumo ao banheiro lembro algo que parece importante: sonhei em preto e branco. Lembro de um carro, filmado de dentro (sim, disse filmado, assim entendo os sonhos), vejo os dois bancos e a estrada escura com faróis iluminando em minha direção, iluminam tanto que acordo, pela segunda, terceira ou quarta vez, mas é só a luz entrando pela janela outra vez. Penso se caminhei até o banheiro em algum momento ou se sonhei, noto a bexiga cheia e tento me levantar, mãos empurram o colchão para baixo enquanto meu corpo é suspenso para o alto, quando sinto o gelo do chão frio tocando o pé direito acordo mais uma vez, agora percebo que perdi o cobertor e tenho os pés expostos ao frio e à janela, acordei mais uma vez.

Vejo a janela, o céu esbranquiçado pelo sol, como os faróis dos carros, de repente caio dentro da janela e ouço gritos, muitos gritos, o sol me cega, meus pés tocam o chão abruptamente e... acordo suada, primeiro vejo o teto escuro, olho para a janela e quase não passa luz pelas cortinas, meus pés estão calçados por meias, minhas mãos ainda agarram os lençóis com força, o filho da vizinha segue gritando enquanto esquentam o motor do carro. Meu quarto em preto e branco.


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