Da cidadela

sexta-feira, 1 de agosto de 2014 |

A cidadezinha se esfriava todo fim de tarde, clamando por meias e casacos. Atravessando as longas e curvas ruas podia-se olfar o cheiro de comida quente esvaindo das casas, o silêncio ecoava entrecortado apenas por alguns pneus atritando no asfalto até que fosse madrugada e algum galo cantasse despertando os cachorros que sem exitar se punham em coro.

Em uma das esquinas, uma casa antiga, de paredes de barro, portas e janelas de madeira azul escura saía, então, um velho senhor com blusas largas e uma touca negra para buscar o primeiro pão da manhã, as luzes de alguns postes ainda acesas o acompanhavam na travessia enquanto a serragem subia ao aquecer dos primeiros raios do sol.

O silêncio da manhã era tamanho, que, cortada a respiração se podia ouvir do outro lado daquelas paredes os primeiros tilintares de panelas antes que o cheiro de café se fizesse onipresente.

Quando o sol alcançava altura suficiente para atravessar as portas e aquecer varandas, lojas, padarias e mercearias é que os primeiros diálogos eram arriscados. Alguns balbuciavam sobre o tempo, o frio e o calor, sobre acidentes nas curvas das estradas, ou a vida dos vizinhos.

Já encorajados a pensar no almoço receitas eram discutidas nos balcões mais concorridos das mercearias. Com a mão no ombro do outro, amigos caminhavam juntos até as esquinas, e se despediam energicamente como se não se fossem se ver por muito tempo. E é verdade que as tardes eram tão longas que fios de cabelos brancos poderiam aparecer até a próxima vista no fim da tarde.

E é do fim da tarde que mais gosto de falar, nem cachorros, nem galos, os ruídos de fundo eram das mochiletes arrastando suas pequenas rodinhas sobre as calçadas, chaves abrindo portões e risos nos balcões das mesmas mercearias que pela manhã entregavam pão, pelo meio-dia pesavam raízes e hortaliças e agora serviam doses das mais apreciadas amarelinhas, enquanto os postes acendiam lentamente aqui e acolá suas amarelas luzes como se anunciassem que o jantar estava servido: um a um os habitantes se escondiam dentro de suas portas, comiam e voltavam aos bares com cuias do que sobrou da janta, para acompanhar a próxima rodada de brancas e amarelas.

O senhor de touca preta, outra vez voltava a sair de sua casa, com dois cascos de cerveja, ar de quem não queria nada, apoiado com o cotovelo sobre o balcão reclamava o frio, mas antes que se iniciasse o debate informava que "antes o frio que se passa com cachaça que o calor que não há cerveja que se esbalde", então dava um soco no ar, com o indicador, o polegar e um pisque de olho fazia seu pedido, regressava em segurança com duas garrafas cheias e assim se superavam os dias.

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