Sem Título #

segunda-feira, 25 de agosto de 2014 |

1.

Leio cartas e poemas enquanto os ponteiros avisam a sucessividade das horas.

Me assusto a cada nova carta que recebo. Ainda sabem meus endereços quando até eu estou perdida, sem saber onde situo.

Nem todos poemas de Pessoa ou dedilhados no piano traduzem a madrugada, o desafeto de estar sem sono quando todos dormem.

Sonho vulgaridades nestas noites de calor mareadas pelo sopro úmido da primavera.

2.

Outro dia questionaram minha falta de coerência com os que me rodeiam, não pude explicar como é se sentir o carrossel do parque de diversões.

Hoje vi novos desenhos surreais como meus sonhos, preocupantes como aquelas cartas.

Eu quase não me lembro de ontem, forçando a mente nem posso me recordar o que comi, mas tenho hematomas que me concedem a certeza de não ter estado em inércia sobre as fronhas, sob o lençol.

3. 

O cheiro que as coisas tem quando chegam a primavera não é refletido por suas cores, não posso fotografá-los. A única arte é o cheiro que não se pode captar.

Posso descrever as tardes como um barulho de motor bastante distante, este incômodo que já não lembramos de onde vem até perceber que já ignoramos o ruído repetitivo. E o ar demora em chegar aos pulmões.

4.

Os números, as formas e a geometria do espaço precisam ser maiores que minha diminuta pequenez.

As plantas, os insetos e a primavera resistem ao séculos de história e arte, nada que eu possa impedir.




Então aceito.

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