Assopradores de chuva

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015 |

A chuva vem avisando que chega desde longe. Primeiro choveu na casa da tia, que mora da beira do rio, ela ligou pra avisar que o rio subiu até a metade, desta vez não invadiu o terreiro. Felizes com a promessa de uma chuva que subisse a serra a família comprou cerveja, também aliviados que a tia passa bem. No dia seguinte a água deu um adianto, um taxista me avisou, madrugada afora, que a chuva já alcançava Manhuaçu, contando os dias pra que terminasse o percurso e molhasse a Itaúna, as Palmeiras e o quintal os vizinhos começaram a sentir: a cicatriz de donda Adélia, três dias vermelha, ao contrário do joelho de Mário, que só hoje amanheceu com uma dor rasgante que só podia ser chuva. Pelas dúvidas nem Antônia, nem Ednéia lavaram as roupas, Maria que não é de crer em superstição, nem em promessas esticou três lençóis brancos no terraço. Os lençóis, tão esbranquiçados eram o destaque da rua no dia, e nos lembravam a todo momento da promessa de chuva noturna. Pedro chegou cedo e comprou a cerveja pra beber em casa, a dona do bar fechou quando viu que não haviam mais estrelas, e se confundiu o ruído da porta do bar fechando, era a porta ou um trovão? Pelas dúvidas os vizinhos aplaudiram, dona Maria, retirou os lençóis, outro trovão, e por fim um terceiro e fatal, seguido do chiado inconfundível e do frescor da chuva, sorrindo Pedro abriu a cerveja, Ednéia apareceu da janela pra sentir melhor o cheiro. E Sandra, irmã de Antônia, ligou pra Eulália, que mora no povoado vizinho pra avisar "já chegou aqui, amanhã mandamos pra vocês", Eulália, que também crê nos avisos da natureza afirmou "desde cedo os gados se escondem, acho que tá quase chegando mesmo". Acabou a seca nas Gerais, e com muita cautela a chuva vai visitando cidade a cidade e sua chegada é anunciada alegremente com dois ou três datas de antecedência.

Chove!

0 comentários: