Traduzi este texto para que uma amiga lesse a achei que devia publicar em algum lugar, para que outras pessoas pudessem ler, nunca usei este blog para este tipo de postagens, mas não vou criar outra página apenas para publicar a tradução.
Trata-se da tradução do texto de uma comunicadora (?) argentina, conhecida sobretudo por seus vídeos e programas humorísticos, o texto é sobre violência de gênero e bastante esclarecedor. A tradução é livre título original seria "A violência não é uma/La violéncia no es una", mas para compreensão mais orgânica em português traduzi como "a violência não é única", tomei o mesmo tipo de liberdade em outras partes do texto.
A VIOLÊNCIA NÃO É ÚNICA
Malena Pichot
Sempre que se fala de violência de gênero parece que muitos começam a se incomodar, o repúdio é imediato, instantâneo, muito parecido a uma reação programada. Quando se fala de violência de gênero uma frase se repete em todos aqueles que se negam a refletir de verdade sobre o tema: “a violência é única”. Este é o lugar comum para tornar invisível um problema que para muitas pessoas é obscenamente visível. “A violência é única” é a frase mais perigosa que li nos últimos tempos nas redes. Quando se diz isto, estamos igualando uma infinidade de conflitos, que de nenhuma maneira são iguais. Não é o mesmo que dois homens troquem socos, a que um homem dê socos em um ou uma menor. Não é o mesmo que duas mulheres se troquem socos, a que uma mulher dê socos em um ou uma menor. Não é o mesmo que te bata um colega de sala a que te bata um professor. Não é o mesmo que te bata um desconhecido na rua a que te bata um policial. Não é o mesmo que te sequestre um criminoso comum a que te sequestre uma organização paramilitar do estado. Não é o mesmo. Podemos encher a boca dizendo que toda violência está mal, sim claro, quem discutiria, mas com estas sentenças óbvias e vazias chegamos apenas até aqui.
A realidade é que estas violências estão muito claras, porque são irrefutavelmente condenadas pela sociedade e não é preciso explicar a ninguém o que significam, não é preciso convencer ninguém de que são verdades e de que acontecem. Agora, quando se trata da violência de gênero, essa violência que parte especificamente do homem heterossexual como representante do discurso hegemônico, aí já ninguém quer falar do tema. Ninguém quer falar profundamente disto, porque não queremos nos colocar contra aos homens heterossexuais de nossas vidas a quem tanto amamos. Mas, não é hora de deixar de ter medo inclusive dos homens queridos de nossas vidas, para poder dizer e pensar o que queremos realmente?
Ninguém quer se meter muito, porque meter-se na violência de gênero é em parte aceitar que todos e todas podemos estar formando parte do problema. Parece que o mais difícil de aceitar é também o mais óbvio: que um homem bata em uma mulher não é o mesmo que uma mulher bata em um homem. Doa a quem doer. Claro que ambas estão mal, mas não são o mesmo. E também é difícil de aceitar que nem toda violência exercida a uma mulher tem a ver com uma questão de gênero, com o fato de que seja mulher. Se fosse assim ninguém poderia nunca fica com raiva de uma mulher, o que é ridículo. As mulheres (oh surpresa) somos pessoas e como tais, podemos ter todas as qualidades das pessoas, podemos ser honestas ou criminosas, boas ou más e todos seus cinzas. As mulheres não somos “seres alados de pura bondade”. Alguma vez você vai insultar uma mulher E não será violência de gênero. Não é o mesmo insultar a alguém porque te mentiu a insultar alguém por sua sexualidade. Não é o mesmo insultar a alguém porque chegou tarde a insultá-lo por sua origem. Não é o mesmo insultar a alguém porque te roubou a insultá-lo porque já não quer te ver mais. Não é o mesmo um ladrão que bate em homens e mulheres em um roubo, a um marido que bate em sua esposa sistematicamente. Não é o mesmo. Colocar tudo na mesma bolsa de “a violência é única” é fazer um esforço para não entender o problema.
Quantas vezes você viu um homem maltratar severamente a sua namorada ou esposa e não disse nada porque te pareceu que era “um tema particular deles”? Quantas vezes escutou “fulano bate em fulana” e por dentro pensou “bom, se ela não o larga por algo será”? Quantas vezes escutou o depoimento de uma vítima de uma violação e disse “tem que ver se é tão assim, eu não acredito”? Quantas vezes escutou que seu ídolo era um abusador e escolheu dizer “isto é impossível” e não pensou mais no assunto?
O que acontece com a violência de gênero diferente de qualquer outro tipo de violência é um primeiro impulso de negação, e por isso diferente das outras é uma violência endossada pelo estado. Esse primeiro impulso de negação é o que o discurso hegemônico programou em nossas mentes ao longo de nosso desenvolvimento nesta cultura. É a concepção da mulher como objeto e possessão do homem, homem que tem o direito de fazer o que quer com nosso corpo: “se você vai à casa de um cara é para transar, se não fique na sua”, escuramos infinidade de vezes. Então, se você entra na casa de um cara já perdeu toda condição de pessoa e é um objeto dele, igual que seu sofá. Nos ensinam, às mulheres, a agradar aos homens em tudo, mas depois se suspeita de nós se não sabemos nos defender. A violência de gênero é a violência e o abuso a pessoas exclusivamente por pertencer a um gênero que não é o dominante. Como feminista creio na importância de desarmar a ideia de dois gêneros únicos, mas está claro que há um gênero dominante e opressor nesta cultura patriarcal e é o gênero masculino, acreditar que um homem cisheterossexual pode ser discriminado por ser um homem cis heterossexual é o maior absurdo do mundo. As personas homossexuais, travestis e trans são golpeadas e mortas exclusivamente por isso, só por isso, às mulheres nos matam por dizer que NÃO. Nenhum homem heterossexual é brutalmente assassinado por ser um homem heterossexual, e isso é importante entender de uma vez por todas.
A violência NÃO É ÚNICA, há uma violência homofóbica, há uma violência transfóbica, há uma violência de gênero, há uma violência institucional, há violência familiar, violência laboral e seguramente muitas mais com as que não estou familiarizada e espero poder fazê-lo no futuro. Compreendê-las, analizá-las, investigar sua origem é a maneira de combatê-las. Aceitar que podemos estar fomentando estas violências desde nossa ignorância é um passo duro que é preciso que dar. Todos somos machistas porque nascemos e crescemos nesta cultura, mas algumas pessoas decidimos nos corrigir a cada passo.
Link para o original: http://www.malenapichot.com/la-violencia-no-es-una
A violência não é única
quarta-feira, 20 de abril de 2016 Postado por admin às 13:15 | Marcadores: Artigo, tradução
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