Outro dia encontrei um amigo que eu não via há alguns anos. Ele, bem mais maduro, tinha o rosto marcado por uma barba negra, mas aparada; os olhos também negros tinham a mesma expressão do moleque que me ensinou a gostar de giz de cera; quando ele deu o primeiro sorriso vi que tudo que tinha mudado era o porte físico e a barba, por dentro era o mesmo menino de sempre, me senti mais à vontade, menos desconhecida.
Pontuando as frases com seus sorrisos e pequenas gargalhadas ele me contou que estava estudando no RJ, coincidência ou não numa universidade pra qual eu quase fui no início do ano. Explicou que anda trabalhando com desing de sites, mas quer fazer algo mais artístico e se pudesse vivia de pinturas e desenhos. Depois de duas mordidas nos lábios - e outro sorriso - me contou sobre seus projetos pro futuro, queria mesmo era viajar de Norte à Sul, pela América Latina, e quase não fazia questão de conhecer os continentes do Norte.
Me vi nele.
Apertando os olhos, como faço quando estou feliz, expliquei que apesar de inúmeros projetos como faculdade de Arquitetura e também viajar. Não tenho feito muito, além de dormir e criar alguns "artefatos hippies", como insisto em chamá-los. Andei tentando vestibulares federais, mas não passei. Estava aproveitando o tempo à toa para estudar e ler um pouco. Nada demais.
Começamos a lembrar da infância juntos, os giz de ceras, os deliciosos bolos de chocolate à R$0,50 na cantina da escola. O dia que - milionária - com R$5,00 eu quis comprar qualquer coisa na cantina desde que fosse "mais caro que os bolos de chocolate". As gargalhadas diante de cada fato chegavam até a entristecer, de saudades. Ele me fez recordar uma coisa que sozinha eu jamais rememoraria, uma aposta que fizemos:
_ Se na sexta-feira tiver que trazer o material você me dá um beijo! Se não precisar trazer, você não precisa me dar o beijo também. - ruborizada pela proposta aceitei, até porque sexta-feira de "semana das crianças" nunca levamos material, era só festa.
A quinta-feira chegou e fiquei tensa pensando "e se eu estiver errada", "e se este ano mudar". Mas com um sorriso no rosto a professora informou, no fim da aula, que não era preciso levar mochila no dia seguinte. Quando eu ia atravessando a primeira quadra, em direção à saída, ele veio correndo atrás de mim com a mochila saltitando nas costas.
_ Lílian, Lílian! - só olhei, eu não gostava de conversar na saída, pra não perder o ônibus. - Eu perdi a aposta.
_ Eu sei.
_ Então, não vai me dar o beijo?
_ Hã? Eu ia te dar o beijo se você ganhasse.
_ Eu já perdi a aposta, vou perder você também? - um frio no coração e na barriga me assustou, provavelmente demonstrei aquilo no rosto porque ele ruborizou e saiu correndo, em direção ao tumulto no portão de saída.
Ele contou que pediu pra mudar de escola porque ficou com vergonha de mim. E deu uma gargalhada olhando pro céu, virando a cabeça para cima, exatamente como fazia quando eu contava alguma piada na escola. Discutimos se depois daquele dia nos falamos de novo ou se era a última vez que tínhamos trocado alguma sílaba.
Um celular tocou.
Quando pôs a mão no bolso para tirá-lo ele revelou - sem querer - que carregava giz de cera no bolso da bermuda. Esperei terminar o telefonema e questionei.
_ Eu nunca disse que tinha deixado o giz de cera na infância. Ainda faço todos meus desenhos com eles.
_ Sério?
_ Sério.
Ele colocou a caixinha com 6 cores pela metade na minha mão:
_ Toma, estes são seus. Você tá precisando recuperar sua infância.
_ Estou?
_ Tá sim, você tá madura demais. Hm, não tem um sorriso inocente mais, um olhar assustado. Que te aconteceu neste tempo?
_ Tudo bem, aceito o presente. - evitei a conversa desagradável que se aproximava.
Entre cócegas, beliscões, risos e risos, abraços, memórias, futuro e quase nada do presente encerramos a conversa. Quando ele decidiu que já era hora e percebi que estava com fome levantamos, quase sincronizadamente juntos, e trocamos um abraço de despedida.
Dei dois passos e meu braço foi puxado, impedindo o terceiro.
_ Você me deve aquele beijo.
_ Eu não perdi a aposta.
_ Eu perdi a aposta, perdi você e vou perder de novo? Quanto tempo mais tá disposta a ficar sem me ver? - arregalei os olhos e percebi que tinha acabado de fazer a mesma expressão que o botou pra correr. Ele puxou meu braço de novo e ganhou o beijo.
_ Acho que você acabou de recuperar alguma coisa da sua infância.
_ O que fiz?
_ Primeiro este olhar, continua igual. Segundo, eu.
E ai sim, fomos cada uma pra um canto pra talvez passar mais outros 8 anos sem se ver.

6 comentários:
Eu sei que você me odeia, mas eu vou
dizer assim mesmo. Muito bem escrito
este texto. Queria conseguir dizer tanto
sem escrever muito, assim como você faz.
Sempre escrevo demais, e sempre estrago tudo
com isso. (Vide este comentário mesmo.)
Que delícia... levinho e cheio de memórias. Que a gente nunca perca o dom de colorir a vida com as cores do giz da infância.
Beijoca, Flor.
hauha vc fez esta história ter mais sentido. Não guarde os giz de cera, pinte o mundo e depois te dou mais hauhau beeijo
poxa, muito bom, hem, lílian! um dos meus favoritos.
Olá, Lília. Ah, antes de você fazer a pergunta a sim mesma,eu respondo: é a primeira vez que passo aqui, eu acho, não lembro ter passado antes. Ao ler este texto, vi em você uma grande escritora, talvez, uma cronista, talvez uma contista, talvez uma roteirista; não sei, mas você é para as letras.... mil bjos,
Oi Lílian, bom, sabe-se lá quem tem razão, se eu ou você. Eu que me deparo aqui a sempre aprender um pouco mais de fazer poesia, isso aqui me toma, satisfeita fica uma boca cheia de dentes, que, escondidos, querem se mostrar...
Quanto a minha idade, creio que tenho todas as idades, umas mais cansadas, outras mais peraltas, que correm atrás de pirilampos ainda pela esquina da noite adentro.
Beijo meu bem.
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