Outro dia, atravessando a rua distraída me deparei com uma figura estranhamente familiar. Os olhos contraídos enrugando a testa, os lábios retos sem formar algum sorriso, o olhar fixo no chão com determinância invejável: não olhariam ninguém, nem para mim.
Abaixei os olhos em reposta e facilmente influenciada adquiri seu mau humor. Percebi que nossos passos desencontravam na mesma velocidade, íamos em direção aposta, sem perceber a poética de estar indo de encontro, apesar de opostas.
Alguém dentro de mim conhecia perfeitamente os motivos do mau humor daquele alguém fora de mim, que tropeçava na própria sombra sem sequer desequilibrar. Algum cantor invisível sussurrou versos na minha orelha esquerda: "parece não achar lugar no corpo em que Deus lhe encarnou, tropeça a cada quarteirão..."
Depois que nosso ponto de encontro já distava dois segundos negativos, virei a cabeça e olhei pra trás, procurando aquela figura em meio à multidão. Nada.
De repente: despertei, o caleidoscópio parou de girar, minha mente voltou à realidade, tirei o olho do buraquinho e percebi que por pouco, as duas de cabeça baixas, não nos tropeçamos. Éramos eu & eu.

1 comentários:
esse texto ficou bem legal. light e legal. e a música dos los hermanos é muito boa hem, no texto ficou bem "exata"... dia que eu ouvi "cara estranho" - chama assim né? - pela primeira vez dei uns três, quatro replays, mas tipo, sem fazer mais nada, só escutando. a melodia é ótima e a letra me fez rever, principalmente, se eu estava tropeçando muito. :P
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