Era uma despretensiosa manhã de segunda-feira, um feriado daqueles com ar de Domingo, ninguém abandona o sofá para comemorar o feriado. A agitação de um dia comercial chega a fazer falta. Sem que ninguém percebesse meu sono durou umas horas a mais, mas seria até pecado não fazê-lo naquele dia chuvoso.
Na sala de Tv, minha mãe - perdida em outro assunto - discutia com meu pai que "aquela festa que eles brigaram" foi uma semana antes do meu nascimento e eu nasci numa segunda-feira.
_ Não, era Domingo.
_ Eu tenho certeza que era Segunda, marquei a cesária na segunda para você pegar a semana toda de folga.
_ Não é não Vanilda, foi num Domingo. O Brôa ainda que me levou de Fusca lá no hospital pra buscar vocês. Ele não ia estar à toa se fosse uma Segunda.
_ Vou pegar a certidão dela pra te mostrar. - e saiu andando rumo às escadas.
_ ... o Brôa, a Zi e a Lívia, dentro do fusquinha 87 que eu tinha, placa 4810. A Lívia até pensou que a Lílian fosse uma boneca e ficou pedindo pra dar pra ela "dá pa mim, dá pra mim".
Minha mãe entrou no meu quarto e perguntou onde estava minha certidão. Até tentei me virar na cama, mas meu corpo estava pesado demais, estranho não se aguentar né? Tentei falar na posição que estava mesmo, mas foi como em falha de comunicação pelo telefone: ela continuava me gritando e eu continuava falando, eu a escutava, mas ela não conseguia me escutar.
_ TÁ NA SEGUNDA PORTA. - gritei. Ainda assim ela não ouviu, era agonizante aquela situação, eu gritando e minha mãe continuava sem escutar, ia ficando brava comigo. Comecei chorar.
Hey mama, can't you hear me cry? Ei mãe, não tá me ouvindo chorar? ♪
Depois de muito brigar comigo de longe, por eu sempre dormir tarde e agora não conseguir acordar. E com certeza teria bebido na noite anterior, agora não conseguia nem levantar: que vergonha, meu Deus! Que vergonha! O que ela ia fazer comigo? Não tenho jeito mesmo.
Ela puxou meu corpo virado pra parede e viu as lágrimas escorrendo. Que alívio virar, que alívio. Voei longe, mas eu continuava ali. Notei que tinha me separado do meu corpo, que estranho não sentir nada, ainda tenho visão e audição, mas cadê meu tato e meu olfato? Será que tinha paladar? Lambi a parede - que loucura -, não senti gosto de nada.
Minha mãe estava desesperada, sem forças pra gritar, pra chorar, pra sorrir. Ficou pálida, seus finos lábios em forma de "costurinha" - como eu e minha irmã sempre gostamos de lembrá-la - mal se distinguiam da pele do seu rosto. Ela falou bem baixo o nome do meu pai, mas foi abafada pela chuva que acabara de aumentar.
Claro que não é bom ver sua mãe naquele estado e não poder fazer nada. Mas cheguei na janela e me senti bastante feliz: a chuva não falhou, eu sabia que ia chover quando eu morresse. Cadê a Juliana pra me dar um abraço e falar "pô Lílian, não precisava fazer chover tanto assim, era só ter me ligado". Ri da minha distração, voltei a observar minha mãe, agora já abraçada ao meu pai, com um papel higiênico enxugando o rosto.
De repente eu já não via nada. Era como se tivesse desmaiado. Acordei de volta ao meu corpo. PERA AI! EU RESSUSCITEI? SABIA QUE CRISTO ERA EU, SABIA. Calma Lílian, não tá na hora de fazer piada, é um velório.
_ Opa, meu velório. Quero ver quem veio. - eu não queria desgarrar da ironia e encarar a realidade.
Nossa a Juliana! Falei nela hoje, ops. Olha ali minha irmã chegando, quem são esses com ela? Não entendi. E ali minha mãe, tias, tios, prima... ops, que esta puta tá fazendo aqui? Olha ali gente, me visitar viva não visita, agora que to morta ele veio né? CARAMBA meus avós, ai não, meus avós, vou chorar. Não sabia que morto também ia em velório, por isto o clima é tão pesado! Eu quero conversar com alguém.
Me aproximei das pessoas vivas tentando aparecer pra qualquer uma delas e conversar, como é ruim ser invisível. Então aproximei da minha avó Vina e sorri. Ela retribuiu. Se eu tivesse coração ele estaria super acelerado, mas não tive sensação nenhuma, a não ser minha cabeça que girava sem o que dizer:
_ Posso te dar um abraço? - ela continuou em silêncio e rindo, olhando bem no fundo dos meus olhos. Que estranho, sempre imaginei minha avó materna, como ela seria comigo e depois das fotos que vi eu nunca consegui imaginar ela sorrindo, agora ela estava ali sorrindo pra mim. Isso me fazia não ter nenhuma "saudade de mim", não estava triste por ter largado a vida pra trás.
Abracei.
Nunca vi um velório tão cheio. Eu não era popular assim enquanto viva. Mas minha família é grande, e agora vejo os mortos que vieram também, né? Não conseguia separar os vivos dos mortos, não sabia quem era muita gente ali. Era como o aniversário que nunca tive, todo mundo TODO MUNDO estava lá. Mortos, vivos, amigos, inimigos, primos, tios, tias e gente que eu não conhecia. Eu estava feliz, confesso.
Quando eu me aproximava alguns começavam chorar compulsivamente. Que horrível! Eu não queria provocar aquele sentimento neles, será inevitável? Tenho que ficar de longe? Alguém me ensina o que eu tenho que fazer? Quando acabar o velório e o enterro, pra onde eu vou? Tenho que saber o caminho do além? Vou ficar freqüentando enterros como meus avós maternos? Que agonia!
Uma rodinha de amigos de todas minhas faixas etárias sorria, apesar das lágrimas. Aproximei. Não o suficiente para começarem chorar. Uma das pessoas me olhou fixamente, como se tivesse visto o Demônio. Será que ela ta me vendo?
O olhar desviou e o assunto continuou. Que horror! Eles estavam contando coisas que eu pedi pra nunca contarem. Agora que morri o nunca não acabou. Esta história aí é mentira. NOSSA que insano, ele tá mudando a versão dos fatos. Quem disse que eu fiquei com você? Agora vão ficar tirando vantagem de mim só porque não posso desmenti-los? RAISSA! Não conta isso, NÃO, cara eu te mato! - ri de mim e sai de perto.
6 comentários:
Adorei! Passei do choro ao riso, com uma facilidade incrível.
Será que só depois de mortos é que realmente conhecemos nossos amigos?
Bjs Li
Olha, a minha irmã teve uma morte mais real que esta minha... e talvez ela possa te responder. Outro dia narro a morte dela por aqui. haoiuahiouahioa
Lílian,,, esta sensacional.. Parabéns.. desse geito você vai longe
Abraços
Mauricio Sangue Azul
li!
oi? como assim?
bjs, Maíra.
HAHA...! bacana, visita sempre ;)
bjo bjo
Postar um comentário