Não adianta mandar os retratos pela janela e a aliança pelo vaso, Gabriela sabia disto. Devolver todos os presentes e mudar o visual estavam fora de cogitação. Algo no ar pesado e frio daquela manhã a fazia pensar que solução não havia, era seu direito sentar no sofá e sofrer até não mais fazer sentido sofrer.
Sua amiga, Julia, já pensava diferente. Basta repetir a mesma palavra quinhentas vezes para esquecer o motivo da repetição, o que te fará repetir até lembrar por que começou, é um ciclo vicioso. Então, propuseram-se encontrar a saída para o problema, que nem era um problema.
Se amar de nada servia, se todos os homens eram imperfeitos por que ainda buscavam a perfeição no amor? E se Gabriela não tivesse criado nenhuma expectativa sobre Carlos, tivesse esperado para conhecê-lo por inteiro. Então agora estariam os dois juntos, ainda abraçados comemorando cada conquista que fizeram um dentro do outro?
Julia decidiu que já não dava para voltar atrás, criar ou não expectativa sobre o imperfeito homem perfeito que sua amiga escolhera. Era melhor Gabriela tomar um bom banho e sair daquele quarto, descobrir que lá fora há milhões de pessoas novas para se conhecer, e o divertido é pensar que todas elas já sofreram por alguma coisa, e só uma terá sofrimentos que casam par com o de Gabi.
A mente da menina ainda estava confusa, dentro dela tudo estava congestionado, era como se não houvesse mais nada a fazer e algo ali dentro estava morrendo. Já a outra, abatida da vida, acreditava que diante de uma vida tão gigante pela frente e de coisas tão maiores que ambas já haviam atropelado no passado, aquele Carlos era só um infeliz do qual elas ririam um dia, ao contarem para os filhos.
Julia riu.
Gabriela ainda chorava.
_ "Ah, eu não como no McDonald's por que os bifes são de minhoca!" - e continuou rindo, enquanto Gabriela enxugava as lágrimas e tentava rir aos soluços - Ainda bem que você não casou com ele, ia pirar seus filhos "olha filho, não come este bife de minhoca" - completou empolando a voz para imitá-lo.
_ Ai Jú, ele pode até ser esquisito com os bifes de minhoca e o jejum das quartas-feiras, mas eu gostava dele.
_ Que bom que gostAVA - enfatizou - porque sabe, eu não queria te falar mas ele era muito estranho, quando você melhorar te conto o que eu sabia dele. Ah, e também por que ganhei dois convites pra uma festa que eu acho que você gostaria de ir.
_ Ah, não vou não! Olha minha cara inchada de chorar, não saio e não saio. - olhou pros convites - Ei! É pro show do.. do... ai nem acredito. EU VOU!
E assim decidiram que Carlos não era o homem certo, que o guitarrista da nova bandinha da cidade era mais bonito que o vocalista e que nunca mais amariam ninguém, pelo menos não até a semana que vem. Até porque repetir "não amarei" quinhentas vezes gera um ciclo vicioso que lhes faziam amar.

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