Aqui, na Rua José Belegard - a última rua do "Centro" de Caratigna -, moramos os Alcântaras. É um "aglomeradinho" com passagens secretas de uma casa para a outra. Da minha casa, Moreira Alcântaras, posso ver o quarto de visitas da casa da minha avó, se olhar rumo à clarabóia em que meu pai cultiva suas pimentas e cebolinhas; ou posso ver o a janela do quarto dela, se olhar pelo vasculhante. Se eu der três socos na parede do lado da minha cama acionarei os Reis Alcântara para o parapeito de sua varanda, que é paralelo à janela do meu quarto. E ali, separados por uma parede e uma grade, podemos decidir vários assuntos familiares com a dona do barzinho anotando tudo pra comentar com os vizinhos futuramente.
Da casa dos Reis Alcântara tem uma porta que sai na cozinha da casa da minha avó. Do lado da casinha anos 40 da D. Angelina (avó) existe a passagem secreta, que os carteiros e entregadores de pizza não descobriram mesmo depois de 25 anos, para a casa dos Sturzeneker Alcântara. Todas as três casas ilhando a casa central que viu esta rua ser construída.
As 4 casas já abrigaram - em soma - 20 Alcântaras. Hoje, depois de casamentos, faculdades e mudanças somos 10. Como os Alcântara Azevedo estão abrigados por tempo indeterminado na casa da D. Angelina somos 14. Se tudo der certo pra todo mundo no fim do ano restarão 7. Minha avó passou os últimos anos fazendo esta conta, de vez em quando perde um neto e sempre se assusta com a facilidade que os "meninos dos seus meninos" têm em sair de casa, enfrentar uma faculdade ou um casamento.
Com tanta gente indo e vindo por aqui os vizinhos - e nós mesmos - determinamos o perfil do Alcântara. Falta pouco oficializar um documento explicando todo o perfil ranzinza dos homens Alcântaras, o machismo, o catolicismo e as brigas intra-familiares.
De tanto conviver juntos alguns dos irmãos reúnem motivos para não trocarem olhares, sílabas ou compartilhar interesses. Entre os netos há os que não se gostam, os que já foram melhores amigos e hoje esquecem o "Plano B - sempre amigos", ah mas isto era para o pique-pega, agora que lembrei.
Não importa a desunião que aconteça, se falta humor para reunir no Natal, se precisa de uma reforma na casa base disto tudo, ou se morre alguém - o único motivo pelo qual nos unimos todos em volta de uma mesa, já ouvi alguém dizer que o fato de finalmente reunir a família até diminui a dor do enterro. Não importa mesmo o motivo, a conclusão sempre será "isto é coisa de Alcântara".
É que somos tão unidos em torno da nossa desunião.

3 comentários:
que bonito contares esta parte de tua história.
adorei comentário teu lá no blog, das imagens dos livros :)
diz-me uma coisa: tás disposta a escrever, pra semana que vem, um textim sobre o cruzeiro? lá no meu blog futebolístico costumo abrir espaço a torcedor de vários times para enaltecerem as cores de suas paixões. e nada melhor agora que um texto do zeiro presses dois jogões contra o sampa. me escreve e-mail dizendo se topas. seria para o jogo da volta o texto...
italopuccini@gmail.com
beijo!
demais! adorei. li tb "As verdades sobre Julia" - a saga dos nomes favoritos da lílian. e os poemas. e a foto do "Conversa de quarto" ficou incrível. aquela do guarda-chuva, no flickr, tb - posso postá-la no blog?
Brunão, pode usar sim!
Mas coloca créditos pra mim e linka pro meu blog ou flickr, pra ver se fico famosa depois que um poeta me indicar! *-* brinks, só precisa por meu nome mesmo.
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