Minha vida às vezes parece ser um êxodo eterno. Estou sempre fugindo, seguindo um caminho que não parece acabar. Tenho um talento invejável pra sair da realidade. De uma coisa estou certa, ainda há refúgio.
Dentro do ônibus
Enlatada sobre rodas olho pra janela e vejo quanto verde ainda temos dividindo as cidades. Agora sei porque a cor verde simboliza esperança. No entulho urbano acabo imaginando que as cidades são todas grudadas uma nas outras, e que se não fosse pelos rios que as separam eu nem perceberia quando mudasse de território político.
Mas não, agora posso ver como elas são distantes. Olha quanto tempo já gastei escrevendo este texto e não cheguei no que chamamos de "cidade vizinha"! Olhando pra estes pastos que beiram a Rio - Bahia 116 tenho saudades das minhas fugas de mim mesma.
Dentro de mim
Num passado que não tenho certeza se passou. Dois dias depois do que posso chamar de pior-dia-da-minha-vida, peguei meu veículo de duas rodas - bicicleta - e me joguei nestes matos buscando qualquer coisa que não fosse minha vida. Os pássaros, as árvores, o chão, as rodas e os bois eram tão diferentes que pensei estar em outro planeta, outra dimensão de espaço.
Nestes lugares o tempo não passa, não há tempo. Dizer que saí de casa as 8 a.m. e cheguei 8 p.m não é vantagem nenhuma. Afinal, o que é o tempo? O sol nasce e se põe, é só isto. A lua também nasce e se põe. Nada de anormal, devemos nos acostumar com os dias passando, não precisamos medir nada disto.
Dentro do ônibus
Pela janela vejo uma bicicleta vermelha apostando corrida comigo, também vejo, no vidro da janela, o reflexo cansado de quem dorme esperando seu destino chegar. Esperar é um verbo totalmente ligado ao tempo.
Eu queria estar lá fora, acompanhando o garoto da bicicleta e não aqui dentro com esta gente dormindo. Nada me dá mais ânsia de liberdade quanto a estrada, nada me dá mais ânsia de prisão que ver a estrada, estar na estrada e ao mesmo tempo permanecer encubada nesta estufa de rodas.
Dentro dos meus olhos
O livro aberto no meu colo é só um pretexto pra pensar este texto todo sem fazer cara de depressiva. A menina do meu lado já deve ter reparado que não saio desta página desde que sentei no ônibus, é melhor começar a ler.
Mas que diabos é este? Eu me preocupando com esta menina que sentou aqui do lado? Ela até perguntou se podia sentar lá, deitou e virou o rosto ao contrário de mim. Confesso que a vi tentando descobrir que livro eu estou lendo, mas também não abriu a boca para interromper a leitura, ou o pensamento. O mundo precisa de mais pessoas assim.
Agora ela está virando de lado procurando uma posição melhor, percebeu que eu fiquei muito tempo olhando as vaquinhas no pasto. Se eu estivesse no lugar dela já teria rido. Viu que pus a mão na mochila e já arredou as pernas olhando pra mim, nunca tive uma parceira de ônibus tão amigável. Se eu pudesse perguntaria seu nome, mas é melhor seguir o corredor e fugir de mim outra vez.
Fora do ônibus
Olha eu, fugindo outra vez. Pra voltar mais tarde.
4 comentários:
Do pior dia, o que lembro é que não soube do que aconteceu. Lembro do rosto preocupado de Raquel, de poucas palavras somente ditas depois de muito eu insistir, mas palavras que não revelavam nada. Principalmente do que eu realmente queria saber.
Queria saber se por acaso eu tinha culpa em algo, mesmo que indiretamente.
Dois dias depois eu pedalava preocupado em não falar nem fazer nada de errado...
Vou sair daqui. Ficar vendo postagens antigas é muito perigoso para a saúde. Especialmente para a minha, nesse caso.
vc tá pirando? acha que o pior dia da minha vida é o mesmo que o da sua?
nesta data eu nem sei se já te conhecia, já?
se acaso eu te conhecia vc ainda era o garoto do Le vanille e da máquina de escrever...
aliás, a data do texto é... agosto ou setembro de 2009 e não maio de 2010
Postar um comentário