Algumas pessoas dão tanta atenção ao que digo que preciso catar as palavras como pedra no feijão. Se eu fizer uma brincadeira evitando responder uma pergunta difícil a resposta se eternizará. É como se enquanto falo um computador fosse acionado na mente da pessoa, salvando todas as palavras, incluindo os erros ortográficos. E coitada de mim se contradisser a frase um dia, ela será localizada por um "ctrl+f" com determinada urgência e "colada" nas entrelinhas da conversa.
Já faz mais de um ano que prometi emprestar um livro para uma pessoa. Eu prometia na escola, anotava nas beiradas das folhas, nas provas, em papéis que guardava no bolso e até na mão, mas nunca lembrava de levar o livro no dia seguinte. Por fim, pedi desculpas por ser tão infiel aos meus juramentos e recomendei que me telefonasse no mesmo dia a tarde.
Não mais que 14 horas o telefone tocou com a impaciência de quem já tocou várias vezes sem ninguém atender:
_ Ei, eu só queria te lembrar de levar o livro amanhã. - riu para não parecer chata com a cobrança - Ah, desta vez eu vou ler o livro, né?
_ Vai sim, não vou esquecer.
Desligamos o telefone e no dia seguinte nenhuma surpresa, digo, não levei o livro. Pode até parecer má vontade mas não era, eu é que ofereci o livro para concluir um debate longo de uma conversa sem páreo na qual nos enterrávamos todas as manhãs.
_ Nossa! Mas eu te lembrei Lílian. - acusou com os braços em movimento.
_ Desculpa, desculpa mesmo - pensei numa desculpa como o flash de uma máquina fotográfica da década de 90 - é que me esqueço várias vezes ao dia.
Pronto, minha pérola viraria um dito popular - só na vida dela. Na mesma tarde recebi, pelo menos, 7 telefonemas me avisando para não esquecer. Antes do oitavo guardei o livro na mochila e pude cumprir com minha palavra. Achando que isto apagaria meu esquecimento de várias vezes ao dia.
Hoje, para minha surpresa encontrei a mesma pessoa, numa festa de aniversário que eu não sabia que estava indo, a aniversariante não sabia que a festa existia e a "minha amiga do livro" achava uma barbaridade me encontrar por lá (é, eu também).
O assunto, pífio assunto - digo -, era eu e minha eterna meia-idade (desde que me entendo por gente respondo minha idade com o dedo mindinho dobrado e falo 'tenho mei anim').
_ Ah, sim! Mês que vem você faz quantos anos então? Um anim?
_ Não, outro mei anim!
Por um segundo parei para pensar nas datas e aniversários que seguiriam-se depois daquele que eu presenciava.
_ Epa! - alertei contando os dedos - Sexta que vem é aniversário da minha madrinha, sábado é aniversário do Pedro e acho que to esquecendo o de alguém. - não sei por que fazem silêncio quando estou falando comigo - Aaah, que dia é hoje mesmo?
_ Dia 14.
_ NOSSA, hoje é aniversário da Raquel. - olhei pro lado e percebi que estava na festa de aniversário da Raquel, foi um alívio.
Enquanto as pessoas riam alguém explicou minha situação por mim:
_ É que ela esquece várias vezes ao dia.
Sou a de costas, camisa do Cruzeiro. Esta que alisa minha franja é a que gravou minha fala e a de cabelo preto - ao lado dela - é a aniversariante.

4 comentários:
adorei esta ideia de catar pedras no feijão :)
muito gostoso este teu texto!
bjo
A verdade é que venho aqui com frequência, mas esqueço várias vezes ao dia de comentar... ou melhor, esqueço várias vezes ao dia de fazer um bom comentário, por isso não comento tanto... =P
Ah, depois você me empresta aquele livro que prometeu?
Eu pretendia te perguntar que livro que prometi, pq eu esqueci. Mas é que eu tinha esquecido o contexto do texto. Ainda assim não sei se prometi e esqueci. Esqueço várias COISAS ao dia.
Olha só, você não me prometeu, nem se esqueceu (dessa vez); havia esquecido que não era você que me emprestaria. Mas quem será? E que livro era mesmo? Por que estou perguntando isso aqui?
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