Minha irmã é...

segunda-feira, 31 de maio de 2010 |

Todo par de irmãos tem sua rivalidade. Mas é como no futebol, que graça teria o Palmeiras se não tivesse o Timão pra ganhar e perder? Que graça teria ter toda atenção dos meus pais, sem ter que sentir uma pontinha de ciúmes quando a irmã ganha um notebook e você uma simples câmera digital usada?

O primeiro contato entre minha irmã e eu foi em 29 de junho de 1992, ela simplesmente acreditou que eu fosse uma boneca - que acabara de sair do hospital - e insistia em me querer de presente. Anos mais tarde talvez tenha tido vontade de procurar o procon pra devolver o produto.

Lá por meados dos anos 90 quando os trovões eram menos raros na minha cidade - ou eu os dava mais atenção - Lívia e eu quase passávamos as noites de verão em claro. Cada estrondo parecia ser o início de um apocalipse, "Papai do Céu devia mesmo estar muito bravo lá em cima". Numa tentativa de união contra a força dos céus juntavamos as duas camas, com um cobertor amassado tampando o buraco da divisão das duas camas, segurávamos reciprocamente nossas mãos e, finalmente, conseguíamos dormir.

No dia seguinte, nada era lembrado, como um sinal de orgulho. As camas voltavam pro lugar e as brigas também. Mordidas pra cá, puxões de cabelo pra lá, chupa-cabras que viriam me buscar e namorados dela que eu revelaria. "Você não brinca com meus brinquedos" e "você não abre meu guarda-roupas". Mas eu abri assim mesmo, uma amostra grátis de um perfume qualquer me pareceu bastante com "aqueles vidrinhos da farmácia que têm o remédio da injeção", ou seja, pra mim ela estava usando drogas.

Invadi sua privacidade e joguei todos perfumes no chão. Ela saiu do banho chorando e me xingando. Minha mãe criou então a regra: ninguém mexe no guarda-roupas da outra sem autorização. Até hoje ela não aprendeu a regra e costuma buscar peças de roupas no meu lado, mas a gente supera.

Havia dias que ela simplesmente fazia birra com nossos primos pra me defender "se minha irmã não pode brincar então eu também não posso", e eu me sentia a irmã mais importante do mundo. Enchia os olhos de lágrimas, como agora, e abastecia todo meu tanque de sentimentos cancerianos.

Mas como toda relação fraternal a bipolaridade predominava. Outra vez ela quis me escravizar, ninguém sabe por que nós - irmãos caçulas - nos submetemos à este tipo de situação, mas eu aceitei. Apanhava de chibatas de jornal dobrado, andava de quatro, buscava o que ela queria e falava o que ela obrigava, a ameaça era "nunca mais brincar de nada com ela", caso eu desrespeitasse.

Mas a verdadeira crise na nossa "irmanzidade" (irmã + amizade), veio com a chegada da internet em nossa casa. O brinquedo de uma ou da outra, as roupas e os perfumes no guarda-roupas pouco importavam. Agora o problema era com os tempos na internet, 2 horas pra cada uma - regra que, de certa forma, ainda persiste. E se ela não cumpria as horas dela os minutos eram - absurdamente - acumulados.

Depois da internet a briga era pelos estudos. Ela, estudiosa como ninguém, me queria prostrada numa mesa de estudos tanto tempo quanto ela. Mas, de alguma forma, admirava minha facilidade de aprender sem muito esforço. E eu, admirando a persistência dela em aprender mesmo depois de errar inúmeras vezes.

Houveram muitas guerras frias. Vezes em que ela me ameaçava dar uma vassourada na cabeça, ou que eu ameaçava espalhar seus "segredos", que ela convencia minha mãe não me deixar fazer alguma coisa, ou eu convencia meu pai a não deixá-la sair para determinadas festas.

Um dia ela me ligou, no cursinho, avisando que era pra levar pra casa tudo dela que estivesse no nosso escaninho e disse "vou embora, depois te explico, não fala nada com ninguém". Tive medo, felicidade, arrepios, tristeza, susto, pavor, rancor, curiosidade e tudo que pensarem. Não entendi onde ela ia e por que, se era uma boa ou má notícia. Cheguei em casa com seus pesados livros nas costas e vi as malas prontas.

_ Vou pra BH, fazer cursinho.

Não precisava ser vidente pra saber que de lá ela nunca voltaria. Terminaria seu ano de cursinho intensivo em BH, faria seus vestibulares, passaria, ia pra onde passasse, depois do diploma ou estudaria mais por lá ou seguia seu destino, casa, família, viagens e... simplesmente era a última vez que eu a veria como moradora daquela casa.

_ Mas... e a matéria que você ia me ensinar fim de semana?
_ Então tuquinha, não tem como. Pede o João que ele te ensina, ele vai te enrolar, não deixa ele te enrolar não...
_ Ah.. tá bom.
_ Estuda mesmo, quero ver você passar no Coluni, você tem potencial. Você é inteligente e vai passar, no dia da prova fica tranquila...
_ Tá bom, boa sorte em BH.

(...)

Horas mais tarde BH já não era destino. Dias depois ela foi para Ipatinga, sem choros desta vez. E de Ipatinga pra Viçosa e Viçosa para o Mundo. Prometendo, sempre que algo dava errado, nunca mais falar comigo, nunca mais me fazendo favores ou pedindo. _ Vamos ver quem precisa mais de quem.

E de repente me pego percebendo que ela me vê com um futuro mais promissor que o dela - e sempre viu. Assim como eu vejo um futuro bem melhor pra ela.

_ Minha irmã tem uns defeitos, mas ela é inteligente, entende de html, computador, agora tá com uma parceria legal com uma editora, escreve bem, tá trabalhando com umas revistas e ...

_ Minha irmã tem uns defeitos, mas ela é muito inteligente, esforçada, estudiosa, sabe se expressar muito bem, tá terminando a faculdade, vai seguir mestrado e dar aula pra universidades, ela é muito foda. Saca de tudo! Minha inspiração pra ser alguém.

4 comentários:

Sandrinha Fernandes disse...

Amor fraterno é pura poesia. Só discordo que "nós" irmãs mais velhas escravizamos os mais novos.
Na verdade protegemos até demais nosso caçulinha, até hoje faço isto com minha irmã(do meio) e meu irmão (caçula). Aiiiiiii de quem mexer com eles. Viro uma Onça Marruá

Bjos Lí e Lí

Lívia Alcântara disse...

o vidrinho que você quebrou era de queratina, substância que faz mágica nos meus cachinhos.

acumular horas de internet não usada é muita justiça.

adorei meu perfil promissor!

ítalo puccini disse...

tuas histórias aqui tão uma dilícia!

beijo.

Bruno de Abreu disse...

nossa tem me dado muita preguiça de ler textos longos ( de qualquer lugar)

deste último eu li o final e curti muito.

muito. a gente não perde tempo com as palavras por aqui sabe? elas são bem ditas de um jeito que só dá tempo de sentir o que você conta. como andar de patins num asfalto lisinho.

(faz tempo que a gente nem conversa hem... vamo ve se nesse feriado eu entro no msn, aí vc conta das revistas e tudo o mais. pessoalmente.)