A infância deixei pra trás por meia dúzia de mangas, um velório e um par de aniversários velhos. Troquei os "piques" por livros, os sorrisos por abraços, os amigos por lembranças e o medo por insegurança. No fundo eu continuo a mesma pessoa, ainda gosto de correr, gosto de mangas e principalmente de sujar o cotovelo deliciando as mangás ubás, que lembram meu avô.
Assim como quando pequena eu quase nunca vou à rua de cima, mas sempre que vou passo pela mesma calçada pra olhar a casa do "sô Pedro" - o pai do meu pai - e o coração sempre gela quando não encontro as mudas de café, a estradinha e mini-britas, as janelas azuis de madeira. Não encontro nada além de uma velha árvore.
Lembro muito pouco daquele homem que escondia sua ausência de um olho por trás de lentes escuras e um bigode fino, um sorriso exato de dentadura e o cabelo todo branco. Meu pai que me desculpe, mas foi meu avô o herói da minha infância. Não tinha passo mais gostoso de ouvir aproximando da sala de televisão que os passos mancos do vô Pedro com sua sacolinha de verduras na mão.
A minha madrinha - Zenilda - que trabalhava lá em casa era "nega safada" e eu acho que me chamava "sentaqui no colo do vô", acho que era isso mesmo. Sentava e ouvia piadas, assistia truques de mágica e ficava pasmada com a capacidade dele tirar os dentes do lugar, até o dia que minha avó me explicou que era dentadura e desencantou toda a brincadeira.
Bom, o meu velho Cruzeirense que tanto falava de Tostão e Piazza se foi, mas me deixou as mangas. Aquelas que só ele achava fora de época e embrulhava num jornal pra eu comer no dia seguinte, ou no outro. Também lembro que não era qualquer jornal que amadurecia a fruta não, era o jornal que ele enrolava e falava as palavras mágicas, se alguém souber as palavras mágicas... me avisa.
Depois de tantos almoços sentado na mesma cadeira da minha casa, de tanto me deixar usar sua bengala de muleta ele foi adoecendo cada dia mais. Por fim já não podia ir à rua comprar mangas e pão, já não ia à minha casa almoçar, nem me contava a história de como perdeu um olho. Perder um olho é coisa de herói! Da casa pro hospital e do hospital pra casa até ir pra casa da minha tia que muito zelou por ele até...
Até o dia que eu e dois primos - do outro lado da família - estavamos assistindo televisão na roça e o pai deles chegou, já passava de 23 hrs, por que o padrinho estava ali? - a pergunta, na verdade, era dos primos. Batidas na porta, minha mãe levanta.
_ Vanilda, o Roberto ligou! - minha mãe pensou primeiro num outro Roberto que nem sei quem é.
_ Hm?
_ O sô Pedro...
Depois de tanto tempo afastada eu confesso que não chorei, eu já estava muito bem preparada pelos meus pais e tios pra saber que meu avô" não ia durar muito". Antes da minha mãe atender a porta tínhamos - eu e os primos - corrido pro quarto pra não nos descobrirem acordados. Quando ouvi o nome do meu avô saltei da cama e sentei no sofá, o Thales veio tentar consolar e acabamos distraindo. Ouvi o carro voltando - com minha mãe - e corremos de novo pro quarto. Fui questionada por essa ação muitos anos depois.
Foi péssimo descobrir o que é "morrer". Enquanto ele estava no hospital tudo bem, era um velho caducando que visitava zoológicos sem sair do leito, pedia meu pai pra buscar seus bois atolados no córrego e outras bizarrices do seu mundo mágico. Mas de repente aceitar ele transformando em mágica, virando lembrança e saudade era difícil. Foi nessa época que minha avó começou falar que iria morrer também - ela não morre antes dos 100 - e que eu descobri que a vida era linda, mas acabava.
Na escola me divorciei dos livros, até alguém me ensinar a tocar a vida de volta. Até hoje não sei do que mais sinto saudades, do meu avô, do quintal da casa dele ou do seu pé mágico de manga que tá por aí, secando em algum lugar.

5 comentários:
não tinha te achado nesse blog até agora. totalmente distraído! rs
beijo
Lindo texto. Adoro essa forma nostálgica de falar de pessoas importantes e que de certa forma moldaram algo em nossa personalidade. Engraçado, é que ontem mesmo enquanto eu "pernilongava" (é, vamos conjugar o verbo pernilongar pra determinar papos no msn de agora em diante, rs) no seu msn, entre uma parada e outra pra descansar a munheca doída pelo digitar incessante, eu estava era justamente escrevendo sobre minha infância também, e olha, falo da casa dos meus avós (maternos) de pés de frutas e árvores gigantes e até de um pequeno córrego... e outras coisas mais similares ao seu texto... coincidência? Não sei, minha Fílian, mas... que o seu texto ficou maravilhoso de se ler e viajar nas "imagens" que vc nos passa pelas letras, isso sim ficou. Parabéns; seu avô, de onde ele estiver, tenho certeza que ficou emocionado também com essa singela homenagem. Boas mangas, boas letras, continue sempre escrevendo.
att.
Pernilongo do msn, Alexandre
eu gosto pacas desses teus textos em primeira pessoa!
tão gostosos de lê-los.
beijo!
muito bom o texto, aliás tenho adorado relembrar minha infância por aqui; apesar das lembranças não correspondentes ... rsss... mas são as suas lembranças né?! hauhuahau
lindo e mega bem escrito
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