Impublicado

segunda-feira, 29 de agosto de 2011 |

(diário alheio, real, com pequenas alterações)

12 de Maio de 2009 

Começo a madrugada ouvindo samba pra não desanimar, pra desaperceber a solidão deste quarto abafado. Na  boca um estranho sabor de saúde, não bebi, não fumei, não há nada no meu sangue que me possa entorpecer. É estranho pensar tão livremente, sem a indução de narcóticos, álcool ou amigos tresloucados.

Os cachorros latem ao longo da vizinhança afugentando ladrões com sua domesticidade selvagem. O celular cheio de mensagens que não li e acendo um cigarro, vou à varanda sem camiseta tomar um ar refrescante sob a lua crescente.

Abril já se foi, Maio está pelas metades e meu aniversário se aproxima, fico aflito sem saber o que fazer com a data, se chamo os amigos, ou deixo que me chamem, se quero passar ao lado da mesma mulher ou começar o novo ano sozinho, ser um novo homem, de novos livros, novos filmes. Caminho até a prateleira pra observar as capas amareladas que carrego comigo desde os anos de faculdade, será que já passa da hora de abandoná-los?

Volto ao quarto e encontro fotos de uma vida inteira que passou e me transformou neste cara... São quatro dias sem usar nada, nem beber, fumar, injetar, trepar, cheirar, conectar... Tô me libertando dos vícios e agora resolvo deixar também este apartamento.

Preciso resumir minhas tralhas ao porta-malas de um carro, não vou mais residir senão em mim mesmo.

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