Das coisas que respiram

sexta-feira, 26 de agosto de 2011 |


Das coisas que respiram
As coisas neste quarto parecem respirar, movem-se devagar para não acordar o vizinho. Uma cadeira que anseia por servir; uma garrafa repousa sobre a bancada, sua única função é fazer sombra na parede que recolhe os livros.
Ainda estou estudando a sombra transversal que cobre minha cama, se vem da janela, do espelho ou do além. À cabeceira encontro restos de livros, pequenos poemas e algo que esqueceram. Respiro aliviada porque alguém virá, nem que só para buscá-lo.
Hoje lavei o espelho e fui surpreendida pela minha própria imagem. 
Minha inquietude é com a janela, não sei se deixá-la aberta ou fechada, abro janela e cortina e as fecho quando o sol encontra meu rosto refletindo nas lentes dos óculos que repousam suavemente sobre meu nariz adunco.
A TV é só um entulho no quarto, se um dia já foi revolução das gerações e passou ao mundo inteiro a fenomenal chegada inútil do homem à lua, hoje é só um eletrodoméstico sem função alguma. 
Há também uma caneca me implorando por capuccino, há três dias. Mas fecho os olhos pra não sentir culpa por nada neste quarto e sinto saudades de um não sei o quê. E as coisas inspiram e expiram lentamente, até que o espelho me sorri pensando em uma novidade, uma velha novidade qualquer. (22:46, quarto 10, Kacique Salvatti)

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