Ode aos Insetos

terça-feira, 16 de outubro de 2012 |

De criança eu queria ser inseto, seguia fila de formiga, tirava o néctar com as abelhas, subia pelas paredes atrás de tatu-bola, ficava caladinha com as joaninhas, prestava atenção no tempo com louva-deus. Abaixava a cabeça lentamente pra ver o mosquito de perto, andava pela terra observando onde pisava, pra não matar ninguém. Também gostava das aranhas, da taruíras e dos gnomos de jardim.



Foto: Lílian Alcântara, 2012. 

Subia em árvore, me trepava galhos acima pra ver os humanos lá de cima, como vemos os insetos, queria que todo mundo fosse inseto. E conversava com o bicho da goiaba, aprendi a assoviar pra chamar passarinho. Também aprendi a tocar boi, colocar comida para os carneiros, debulhar milho para galinha, tirar o ovo do ninho e colocar na lata.

Era preciso andar como se não tivesse pés para não assustar as rãs e seguir seus gritos, jogar luz no olho e friamente fisgá-las. O perigo era a rã pimenta, não pode encostar que faz a mão arder. E para pescar na beira do rio, com vara de bambuí não pode colocar chumbo pesado que no fundo só tem bagre, com gosto de barro, anzol pequenininho pra pegar lambari.

De criança eu queria ser inseto, pousar em cima da água e olhar pra dentro, aprender como os peixes nadam. Descobri que a barata corre pro lado do barulho e as bruxas não saem do lugar se não são tocadas. Os pombos têm piolho, as minhocas correm pros dois lados, cobra não pega piolho-de-cobra, taturana não chama sassurana e queima a pele.

Eu só queria ser inseto.

2 comentários:

Alexandre disse...

Muito bom, minha ídola libertária

Lílian Alcântara disse...

tá mal de ídolos hein?