Do tempo que as vozes falavam

sábado, 3 de novembro de 2012 |

Me infernizaram a noite inteira. Gritavam debaixo da minha janela, todos meus pensamentos. Falavam tudo ao mesmo tempo e não se podia entender coisa alguma, ouvia-se de longe os gritos, os sussurros e as risadas, até mesmo o choro em coro de todos meus neurônios latejando, rodopiando em busca de respostas para todas as perguntas. Ali, em frente à minha porta, ou debaixo da minha janela, já nem sei. Só me lembro que gritavam em desespero, tentando escapar de mim e eu tentando escapar deles corríamos para o mesmo lado, indecifráveis. Chamei a polícia e pedi que abafassem a baderna, me disseram louca e veio o hospício.

Camisa de força, roupa toda branca, o jornal anunciava qualquer coisa sobre mim, enquanto eu tirava férias no manicômio, lá encontrei outros poetas, tantos escritores, matemáticos e até Deus, que também vestia branco e ouvia vozes, elas viam todas do pátio vazio assombrando nossas noites de verão abafado, pouco vento, pouca chuva, em abundância só calor e gritos. Por fim, com tanta pílula para dormir e tanta sirene para acordar as vozes foram se educando, cada vez mais silenciosas perdiam o dom de viver, de gritar de expôr seus sentimentos.

Falei com o doutor se podia trazer um aparelho de audição, pois eu já quase não as ouvia, só às vezes bem de longe e que até suspeitava que não eram elas, mas as enfermeiras futricando na sala de costura. O doutor sorriu largo, me deu um abraço e eu juro que quase chorou. Talvez ele também tivesse saudade das vozes e não sei por que me mandou ir para a casa. Agora, sem vozes eu já não podia escrever, só sabia era fumar, apreensiva esperando alguma ajuda, alguma voz que latejasse cochichando o que escrever.

Meus poemas já não passavam de duas linhas. Abandonada, a maquina de escrever não terminava nenhuma carta, disseram no jornal que eu havia voltado louca, depressiva e tinha perdido a inspiração. Remendavam trechos de meus textos remontando alguma biografia, avisavam meu fim, me mataram como se eu fosse um voz psicografada nas páginas amareladas daquele jornal e seus cadernos de cultura.

1 comentários:

Márcio Ahimsa disse...

Nosssa!!!!

Que profundidde e percepção poética da realidade expressas aqui nesse seu texto. Belo e inteligente, delicado e cortante.

Beijo, querida.

Bom domingo.