Quando cheguei para o almoço de domingo percebi meu avô ansioso e transtornado na varanda, soltava cinzentas baforadas de seu cheiroso cachimbo e me olhou por cima, como se não me reconhecesse, lhe pedi a benção e já ia saindo, quando me arrebatou uma pequena curiosidade pelo assunto:
_ Tudo bem com o senhor? – como se a pergunta houvesse sido feita corriqueiramente a resposta foi tão maquinal como. – Sim, tudo bem.
Insatisfeita e ainda mais curiosa, enquanto o cheio das batatas amanteigadas cozinhando no forno atiçavam minha fome, aproximei um banco e sentei de frente para o velho, respirando toda fumaça do cachimbo.
_ O senhor está com um ar preocupado, certeza que não aconteceu nada? – Finalmente consegui atenção, desprendeu-se do cachimbo e me olhou de frente, com bigode bem aparado e bonezinho xadrez.
_ Estive pensando bobagens, já não entendo o mundo. – alguns minutos de insistência se passaram até que eu obtive uma resposta concreta.
_ Foi seu primo, o Carlinhos, anda meio disperso, ontem estava nervoso, não achava lugar, saiu e voltou rápido, não conseguia ficar no quarto nem na sala. Comeu pouco, mas ia toda hora à geladeira. Então eu lhe chamei pra conversar e ele veio de boa vontade. – e o vovô me olhou nos olhos fazendo um gesto de surpreso, já que Carlinhos nunca falava com ninguém, e era muito estranha a atitude de conversar de bom humor com o velho.
_ E na tentativa de distrair foi me perguntando coisas do meu passado, como era isso, e aquilo outro. Bom, eu – aumentou o tom da palavra, e das próximas três – na minha experiência, diria que o moleque tá apaixonado, encontrou algum broto. E fui falar com sua avó, ela disse que era besteira minha e já me disse pra levar o lixo à rua, levei e encontrei o Carlinhos meio tristonho na calçada. E aí arrematei a pergunta, logo de cara: Carlinhos, aconteceu alguma coisa? É alguma menina que anda atormentando este garotão? E sabe que o Carlinhos olhou pra mim com um olhar triste – e vovô apertou os olhinhos azuis e enrugou a testa expressando preocupação -, e balançou a cabeça dizendo “é vovô, antes fosse uma namorada, é que a internet caiu e não volta desde ontem”.
Eu, claro, soltei uma longa risada, mas meu avô ficou ali dando baforadas no cachimbo, ainda atormentado sem entender “o mundo de hoje em dia”. Repetindo ideias de como ocupar o tempo sem o computador.
1 comentários:
Sábias preocupações... A história é engraçada, mas no fundo entendo a preocupação. Esse mundo de hoje é cada vez mais confuso. As vezes sem explicações.
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