O mendigo

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 |

Na praça o calor começava antes do sol tomar a sombra da árvore em que ele dormia. Então levantava bem cedo, cumprimentava cada uma das estátuas, o pipoqueiro, corria atrás das pombas, para vê-las subir no fio de luz. Batia na porta de alguém para pedir pão "de ontem" e algumas vezes lucrava até um café, em sua caneca esmaltada pendurada à tira-colo.

Naquele dia resolveu ir pedir pão na Igreja, às vezes o padre lhe acrescentava leite no café. Mas cometeu o erro de entrar pela porta dianteira.

_ Não pise no altar sagrado com teus pecados não arrependidos. Oras, eu já não disse que não se pode entrar aqui? Sem café da manhã para você. Vá jejuar e repensar seus atos, mendigo.

Deu meia volta, desceu do altar, parou no meio do caminho e se virou para perguntar gesticulando qual das duas portas deveria usar para sair.

Foi até a outra praça, em jejum, cumprimentar seu Getúlio.

_ Olha, olha, se não é meu velho Vargas, tenho medo de chegar algum dia e o senhor ter cobrado vida e sair daí. Sei que quando precisarmos você volta, Getúlio. E eu já estou quase precisando!

_ Olá, dona Telma, veio bonita para o trabalho hoje! Quando eu arrumar um emprego vou comprar uma roupa igual da senhora. - duas meninas, sentadas no banco, riram com a frase, o que o obrigou a se explicar - Igual de bonita, e eu sou louco de usar saias?

Bem, louco as meninas tinham certeza de que sim, mas se usava saias elas ainda não sabiam, de qualquer modo disfarçaram os risos.

Dona Odete lhe fez um gesto para que entrasse na lanchonete, ganhou um pastel de angu recheado de taioba, a taioba era do dia anterior e estava um pouco passada, mas como sempre, uma delícia.

_ Odete, você sabe aquela história de Deus?
_ Que história, mendigo?
_ Que Deus uma vez disse que a gente tinha que ter um casal pra entrar na arca que leva para o céu?

Antes de Odete se animasse a comentar o que acabava de ouvir, o mendigo saiu correndo porque dona Frola já se aproximava da praça, ele odiava que tivessem estrangeiros na cidade. O velho Getúlio era mais nacionalistas, agora ninguém cuidava de seu país. Tomara que o Getúlio ressuscite.

_ Bom dia dona Frola!
__ Ei mendigo, estou um pouco atrasada, não me pare.
_ Mas não vou parar não, só vou acompanhar a senhora. É que a senhora parece tanto minha mãezinha, e hoje seria aniversário de 79 anos, se ela tivesse viva.
_ Ah, lamento muito mendigo. - Dizia apressada caminhando com suas pernas curtinhas, porque Ponza não gostava de atrasos.
_ E antes de morrer desidratada em um verão, lá na outra cidade que morávamos, ela disse baixinho: filho, não importa o que aconteça, beba muito liquido e faleceu.

Dona Frola deu uma risada e disse que nem insistisse com suas piadas porque hoje não lhe daria nenhuma moeda, sabia que a última ele tinha gastado em cachaça.

_ E acaso cachaça não é liquido? Só estou seguindo minha mãe.

Saiu correndo atrás de uma pomba.

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