Seu Ponza

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 |

Dos trinta anos que havia trabalhado, Luiz, colocou o relógio para despertar dez minutos antes do horário que devia acordar. Desfrutava aqueles dez minutos à mais entre os cobertores, mais que o resto de seus 30 anos de funcionário público.


Metódico, despertava 5h50, levantava às 6h, tirava a roupa no quarto, atravessava sua enorme e vazia suíte com as peludas nádegas de fora. Tomava o banho mais quente possível, mesmo que queimasse a pele. Vestia a calça azul, os suspensórios vermelhos e se sentia muito engraçado no espelho, então cobria a brincadeira com o paletó e durante o dia sua brincadeira consigo era lembrar de sua cara de palhaço no reflexo. O que talvez explicasse aquele sorriso misterioso que tinha durante o dia.

Saía da prefeitura, atravessava toda a rua principal até o Casarão, mas não sem antes fazer uma pequena compra para o café da tarde de Frola, sua sogra. Chegava em casa com a sacola de compras, algumas vezes levava uma sobremesa para o almoço. Naquele dia levou doce de figo.

Sua mulher, agora já acordada, lhe cumprimentava com um beijo, avisava o que tinha pedido às mucamas para o almoço e pedia o jornal que ele tinha baixo os braços. Ia para a varanda ler as notícias. Ponza, deslizava até a cozinha, cumprimentava e dava a mão a cada uma de suas três empregadas. Naquele dia, abriu o embrulho do doce de figo e, como de costume, lhes ofereceu metade, pedindo que a outra fosse servida à mesa para ele e sua senhora.

Já sentado, sem paletó, gravata ou paletó, um babador de pano no pescoço e os punhos, mas não os cotovelos, apoiados na mesa sustentando os talheres. Dona Lina trazia a salada, sempre bem temperada, algumas vezes picante, naquele dia fria com sua espetacular maionese de salsinha. Sua dama o esperava experimentar primeiro, tendo aprovado ela experimentava o seu.

_ Li no jornal sobre uma nova lei municipal?
_ Muito gostosa esta salada, adoro maionese de salsinha da Lina.
_ Sim, é ótima. Foi ideia do prefeito este imposto? Os fazendeiros não vão gostar de saber, outro dia fui a casa de Rosa, e te digo que o Coronel está muito triste com as contas, pensa em não apoiar o partido nas próximas eleições.
_ Podemos não falar de política durante o almoço?
_ O que trouxeste para mamãe hoje?
_ Comprei algumas mandioquinhas que estava bonitas, mel para o xarope, uma muda de couve para o jardim e pães para o café.
_ E o sabão?
_ Ah, sim. O sabão e o café, também trouxe. Por falar nisso, vá se apressando para trocar as cartas com ela que já tenho de ir ao trabalho.

Este era o momento do dia em que só se ouviam os passos firmes dos saltos de Tidilna, e os pesados de seu Ponza batenco oco contra as tábuas do piso. Mais ao fundo os talheres das três mucamas dividindo o doce de figo com alegria. Aproveitavam a cozinha que era o único momento do dia que as três podiam estar juntas na casa, para se atualizarem das histórias.

Na varanda Carmem descia em um barbante a carta até as mãos da mãe, pois se jogasse do alto e caíssem no chão a coluna de Frola não aguentaria abaixar para pegar. Dona Frola delicadamente retirava um envelope do bico de um pregador, substituía pela sua e gritava alguma pergunta.

_Tudo bem Tildina? Hoje eu vou ao médico!

_ Tudo ótimo, mamãe. Até logo.

Esta era a parte que mais incomodava as vizinhas. Ponza dava os braços à sogra e seguiam juntos por toda rua principal da cidade até a Igreja, a casa de Frola ou, naquele dia, o médico. Um pouco atrasado se apressou até a prefeitura e foi recebido afoito pela secretária.

_ O senhor está atrasado e o prefeito já veio procurá-lo.
_ Leve os documentos e eu assino, Selma.

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